O turismo de natureza vem ganhando espaço entre os catarinenses e ajudando a transformar o perfil das viagens dentro de Santa Catarina. A busca por paisagens, trilhas, cânions, serras, cachoeiras e experiências ao ar livre aparece como uma das principais motivações dos visitantes da Serra Catarinense, região que também passou a combinar natureza, gastronomia, hospedagem e enoturismo.
Dados da Pesquisa Turismo de Inverno na Serra Catarinense, divulgada em setembro de 2026 pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio SC), mostram que 60,9% dos visitantes são moradores do próprio estado. O levantamento também aponta que natureza e lazer permanecem entre os principais motivos de viagem, com destaque para atrativos como o Morro da Igreja, a Serra do Rio do Rastro e a Serra do Corvo Branco.
O resultado indica a força do turismo regional e revela que o catarinense não depende apenas do litoral ou das viagens para outros estados para buscar descanso e contato com o meio ambiente. A própria diversidade geográfica de Santa Catarina permite roteiros de curta, média e longa duração, com opções distribuídas entre o litoral, a serra, os vales e o Oeste.
Serra Catarinense concentra procura por experiências ao ar livre
Na Serra Catarinense, a natureza funciona como um dos principais elementos de atração. O visitante encontra formações rochosas, campos de altitude, matas, rios, estradas cênicas e áreas rurais que podem ser integradas a diferentes modalidades de viagem.
Urubici, São Joaquim e Lages concentram parte importante do fluxo turístico regional. De acordo com o levantamento da Fecomércio SC, Urubici reúne mais da metade das estadias pesquisadas, enquanto Lages e São Joaquim aparecem entre os destinos mais procurados da serra.
O estudo também mostra que o turismo de natureza deixou de ser necessariamente associado apenas a atividades de aventura. O público interessado em paisagens naturais muitas vezes combina passeios ao ar livre com gastronomia, descanso, hospedagens diferenciadas e visitas a vinícolas.
Essa mudança contribui para ampliar o tempo de permanência e distribuir o consumo entre diferentes setores da economia. Hospedagens, restaurantes, agências, guias, produtores rurais, vinícolas e comércios locais passam a fazer parte da mesma experiência turística.
Turismo regional mantém papel central
A presença majoritária de catarinenses entre os visitantes da Serra é um dos principais sinais de fortalecimento do turismo regional. O levantamento indica concentração de turistas provenientes do Vale do Itajaí e da Grande Florianópolis, além da participação de visitantes do Paraná e de São Paulo.
O dado é relevante porque viagens dentro do próprio estado tendem a exigir deslocamentos mais curtos e podem ser realizadas em diferentes épocas do ano. Fins de semana, feriados prolongados e períodos de baixa temporada se tornam oportunidades para destinos que antes eram procurados principalmente durante o inverno.
A expansão desse tipo de viagem também acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Em vez de buscar somente grandes centros turísticos, parte do público procura locais com menor concentração de pessoas, contato com a paisagem e atividades que possam ser realizadas em ritmo mais lento.
Na prática, o turismo de natureza permite que os moradores de Santa Catarina conheçam áreas próximas de suas cidades e redescubram destinos que, muitas vezes, eram vistos apenas como passagem para o litoral ou para a serra.
Hospedagem passa a fazer parte da experiência
Outro aspecto identificado na pesquisa é o crescimento da chamada “hospedagem-destino”. Nesse modelo, o local onde o turista fica deixa de ser apenas um ponto de apoio e passa a integrar o roteiro, com serviços relacionados à natureza, à gastronomia, ao descanso e ao enoturismo.
Na temporada de inverno de 2026, a hotelaria tradicional respondeu por 53% das estadias pesquisadas na Serra Catarinense. Os imóveis alugados por temporada chegaram a quase 30%, impulsionados pela expansão das plataformas digitais.
A mudança amplia a variedade de opções para diferentes perfis de visitantes. Há procura tanto por hotéis e pousadas próximos a áreas de interesse natural quanto por casas e cabanas voltadas à privacidade e à contemplação da paisagem.
Para o setor turístico, a diversificação pode reduzir a dependência de períodos específicos. Uma hospedagem localizada em área rural, por exemplo, pode oferecer atividades durante o verão, o outono e a primavera, mesmo quando não há ocorrência de frio intenso ou neve.
Enoturismo e gastronomia ajudam a reduzir a sazonalidade
O crescimento do enoturismo é outro movimento associado à expansão do turismo de natureza na serra. Segundo a pesquisa, cerca de 20% dos visitantes afirmaram ter visitado vinícolas durante a temporada de inverno de 2026.
As visitas a vinícolas, restaurantes rurais e propriedades produtoras ajudam a criar roteiros integrados. O turista pode percorrer uma estrada cênica, visitar um atrativo natural, conhecer uma propriedade e terminar o dia em uma hospedagem com serviços de alimentação e descanso.
Essa combinação também modifica a percepção sobre o período ideal para visitar a região. A serra deixa de ser procurada somente pelo frio e passa a oferecer experiências relacionadas à colheita, aos vinhos, à gastronomia regional, à observação da paisagem e às atividades de aventura.
Os dados da Fecomércio SC mostram que os gastos dos turistas cresceram 4% em termos reais na temporada de inverno de 2026, em comparação com o ano anterior. O gasto médio por grupo chegou a R$ 3.852, enquanto 80% dos visitantes declararam ter realizado compras no comércio local.
Apesar do resultado positivo, o levantamento também registrou uma queda de 6% no faturamento percebido pelos empresários em relação ao inverno de 2025. A diferença entre o aumento do gasto médio e a avaliação mais cautelosa dos negócios mostra que o crescimento da demanda não elimina os desafios operacionais do setor.
Parques estaduais ampliam as opções de ecoturismo
Além dos destinos serranos, Santa Catarina possui áreas protegidas que oferecem potencial para o ecoturismo e para atividades de educação ambiental. O estado conta com unidades de conservação distribuídas em diferentes regiões, incluindo parques estaduais no litoral, no Vale do Itajaí, no Oeste e no planalto.
Entre as áreas citadas pela Secretaria de Estado do Turismo estão os parques estaduais das Araucárias, Acaraí, Fritz Plaumann, Rio Canoas, Rio Vermelho, Serra do Tabuleiro e Serra Furada. As unidades reúnem ambientes distintos e podem receber atividades como trilhas, observação da paisagem e visitas guiadas, conforme as regras de cada local.
A existência de áreas protegidas amplia a oferta turística, mas exige planejamento. O uso público deve respeitar limites de visitação, condições das trilhas, regras de segurança e normas de preservação. Em ambientes naturais, a experiência do turista depende diretamente da conservação da paisagem.
Por isso, o crescimento do turismo de natureza precisa ser acompanhado por orientação ao visitante, fiscalização, sinalização, manejo de resíduos e qualificação de guias e prestadores de serviço.
Infraestrutura é principal desafio para o crescimento
O aumento da procura por destinos naturais também expõe limitações de infraestrutura. Na Serra Catarinense, os visitantes apontaram problemas estruturais entre os aspectos negativos da experiência. Mobilidade, conectividade e qualificação profissional aparecem entre os temas que exigem atenção do poder público e do setor privado.
O veículo próprio continua sendo o principal meio de acesso à região, responsável por 82,6% dos deslocamentos pesquisados. O transporte aéreo alcançou 9,5%, o maior percentual da série histórica, mas ainda representa uma parcela menor das viagens.
A dependência do automóvel amplia a importância das condições das estradas, da sinalização e da organização do trânsito em períodos de maior movimento. Em destinos com trilhas e atrativos afastados dos centros urbanos, também são necessários serviços de emergência, comunicação e informações atualizadas sobre acesso e segurança.
O desafio não se resume a receber mais visitantes. É preciso garantir que o fluxo turístico seja compatível com a capacidade de cada área e que os benefícios econômicos sejam distribuídos entre as comunidades locais.
Preservação precisa acompanhar a expansão
O turismo de natureza depende da conservação dos próprios recursos que atraem os visitantes. Uma trilha degradada, um rio contaminado, uma paisagem ocupada de forma desordenada ou uma área sem controle de visitação podem comprometer a experiência e reduzir o potencial do destino.
O planejamento deve incluir ações permanentes de educação ambiental. Orientações sobre descarte de resíduos, circulação em trilhas, respeito à fauna e à flora, uso de áreas autorizadas e contratação de serviços regulares ajudam a diminuir impactos.
Também é necessário evitar que a divulgação de atrativos estimule a visitação sem informações suficientes. Alguns locais podem ter acesso restrito, exigir agendamento ou apresentar riscos associados ao clima, ao relevo e às condições da estrada.
Em entrevista sobre os resultados da temporada, representantes do setor turístico destacaram a necessidade de articular conectividade aérea, segurança jurídica, qualificação, sustentabilidade e investimentos. A avaliação reforça que o crescimento do turismo de natureza depende de ações coordenadas entre municípios, Estado, empresas e comunidades.
Perspectivas para o turismo de natureza em Santa Catarina
Os dados disponíveis apontam um cenário de expansão, mas ainda não permitem afirmar que o turismo de natureza tenha substituído outras modalidades de viagem no estado. O que se observa é a consolidação de uma demanda regional por experiências ligadas à paisagem, ao descanso e às atividades ao ar livre.
Na Serra Catarinense, a predominância de visitantes do próprio estado, o aumento do interesse por experiências integradas e a diversificação da hospedagem indicam que o mercado local tem espaço para crescer. O movimento também pode contribuir para reduzir a concentração do turismo no verão e no inverno.
Para isso, será necessário ampliar a oferta de roteiros, melhorar a infraestrutura, organizar o acesso aos atrativos e proteger as áreas naturais. O crescimento sustentável dependerá da capacidade de transformar o interesse dos visitantes em desenvolvimento econômico sem comprometer os ambientes que sustentam a atividade.
Com litoral, serras, vales, rios, parques e áreas rurais, Santa Catarina reúne condições para fortalecer o turismo de natureza entre os próprios moradores e também atrair visitantes de outras regiões. A próxima etapa será fazer com que esse potencial seja explorado durante todo o ano, com planejamento, segurança e preservação.
As informações sobre a temporada de inverno foram divulgadas pela ABIH-SC e pela Prefeitura de Lages, com base em levantamento da Fecomércio SC.








