sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Esportes

Ciclismo em Santa Catarina ganha espaço nas cidades e entra na agenda da mobilidade urbana

O ciclismo em Santa Catarina avança como alternativa de transporte, lazer e atividade física. A ampliação da infraestrutura cicloviária e a criação de novas diretrizes estaduais colocam a bicicleta no centro do debate sobre mobilidade urbana, segurança viária e sustentabilidade.

O ciclismo em Santa Catarina deixou de ocupar apenas os espaços destinados ao lazer e ao esporte e passou a fazer parte das discussões sobre mobilidade urbana. Em diferentes cidades, a bicicleta é considerada uma alternativa para deslocamentos diários, especialmente em trajetos curtos, além de estar associada à redução da dependência do automóvel, à atividade física e à ocupação mais equilibrada das ruas.

Esse movimento é acompanhado pela criação e ampliação de estruturas como ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas, faixas compartilhadas, bicicletários e sistemas de bicicletas compartilhadas. No âmbito estadual, a legislação também passou a tratar o tema de forma mais abrangente, com diretrizes para integrar a bicicleta ao sistema viário, ao transporte coletivo e às políticas de segurança no trânsito.

Em Florianópolis, por exemplo, a prefeitura informa que a capital conta com aproximadamente 270 quilômetros de infraestrutura voltada à circulação de ciclistas, considerando ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e espaços compartilhados. A cidade também mantém bicicletas compartilhadas e vem discutindo a ampliação da micromobilidade no planejamento urbano. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)

A bicicleta entra na rotina das cidades

O crescimento do ciclismo urbano está relacionado à mudança na forma como as cidades compreendem a mobilidade. A bicicleta pode ser utilizada para ir ao trabalho, à escola, a serviços públicos, ao comércio e a terminais de transporte. Em muitos casos, o deslocamento por bicicleta também pode funcionar como complemento ao transporte coletivo, sobretudo quando há integração entre ciclovias, bicicletários e pontos de ônibus.

Essa lógica amplia o papel da bicicleta na vida urbana. Ela deixa de ser vista somente como equipamento esportivo ou recreativo e passa a ser tratada como meio de transporte não motorizado. A mudança exige planejamento, sinalização, fiscalização e obras que considerem a circulação de diferentes usuários no mesmo espaço.

Em Florianópolis, o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável em elaboração prevê atenção à mobilidade ativa, com prioridade para pedestres e ciclistas, além da integração entre diferentes modos de transporte. A proposta também relaciona a ampliação da infraestrutura cicloviária à melhoria da acessibilidade, da segurança e da eficiência dos deslocamentos. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)

Legislação estadual estabelece diretrizes

Santa Catarina criou, em 2019, o Sistema Cicloviário Estadual por meio da Lei nº 17.681. A norma prevê a integração da bicicleta aos sistemas viário e de transporte do Estado e dos municípios, com o objetivo de incentivar o uso seguro desse meio de transporte para deslocamentos e atividades de lazer.

A lei também estabelece princípios como acessibilidade universal, segurança nos deslocamentos, integração com o transporte coletivo e participação da sociedade na construção das políticas públicas. O sistema inclui a rede de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e faixas compartilhadas, além de paraciclos, bicicletários e sistemas de compartilhamento de bicicletas. (leis.alesc.sc.gov.br)

Em janeiro de 2026, a legislação foi ampliada pela Lei nº 19.689. Entre as mudanças está a criação do Sistema de Informações sobre Mobilidade Cicloviária, o SIMCiclo, que deverá reunir dados sobre planos cicloviários municipais, infraestrutura em rodovias estaduais, programas de conscientização e ocorrências de trânsito envolvendo ciclistas.

A alteração também incluiu na legislação estadual a busca pela redução total das mortes de ciclistas, seguindo o conceito de “Morte Zero”, além de reforçar a necessidade de infraestrutura e sinalização em trechos urbanos, rotas de cicloturismo, áreas de treinamento e locais com grande circulação de usuários de bicicleta. (leis.alesc.sc.gov.br)

Infraestrutura é decisiva para a segurança

O aumento do número de pessoas pedalando depende, em grande medida, das condições oferecidas pelas cidades. A existência de uma ciclovia isolada pode facilitar um trecho do percurso, mas não resolve o problema quando a rede não é conectada ou termina em cruzamentos perigosos, vias de tráfego intenso e áreas sem sinalização adequada.

Por isso, especialistas e gestores públicos costumam tratar a infraestrutura cicloviária como uma rede. O planejamento precisa considerar origem e destino, conexões entre bairros, acesso a terminais, travessias, iluminação, drenagem, manutenção do pavimento e presença de equipamentos de apoio.

Também é necessário diferenciar os tipos de estrutura. A ciclovia é uma via destinada exclusivamente às bicicletas e separada do tráfego motorizado e das áreas de pedestres. A ciclofaixa é demarcada na própria pista de rolamento, enquanto a ciclorrota indica uma rota preferencial para bicicletas em vias compartilhadas. Cada solução deve ser escolhida de acordo com as características da rua, o volume de veículos e a velocidade permitida.

Em Florianópolis, a revitalização de um trecho de 4,3 quilômetros da ciclovia situada na orla próxima à Via Expressa Sul mostrou que a manutenção também é parte importante da política cicloviária. A prefeitura informou que a obra recuperou uma estrutura utilizada diariamente por ciclistas e que o município mantém ações relacionadas a pontos de pequenos reparos. (devportal.pmf.sc.gov.br)

Desafios ainda estão presentes

Apesar dos avanços, a consolidação do ciclismo como meio de transporte exige superar obstáculos. A falta de continuidade entre trechos cicloviários, a disputa por espaço nas vias, a ausência de bicicletários e os conflitos em cruzamentos são problemas que podem desestimular novos usuários.

A segurança viária é outro ponto central. Ciclistas estão entre os usuários mais vulneráveis do trânsito e dependem de medidas que reduzam a velocidade dos veículos, melhorem a sinalização e organizem as interseções. A proteção não depende apenas de equipamentos individuais, mas também de mudanças no desenho das ruas e no comportamento de todos os condutores.

A legislação estadual aprovada em 2026 determina que a sinalização deve ser priorizada em áreas urbanizadas, rotas de cicloturismo, locais de treinamento e pontos identificados por estudos como de elevada circulação de ciclistas. A medida indica que o planejamento deve ser orientado por dados e pelas características de cada região. (leis.alesc.sc.gov.br)

Outro desafio é garantir que a política cicloviária seja inclusiva. A bicicleta pode atender trabalhadores, estudantes, idosos e pessoas que não possuem automóvel, mas isso depende de rotas acessíveis, iluminação adequada, segurança e integração com o transporte coletivo. A qualidade da rede também influencia quem está começando a pedalar e ainda não se sente confortável em vias movimentadas.

Compartilhamento amplia o acesso

Os sistemas de bicicletas compartilhadas ajudam a reduzir uma das principais barreiras de entrada: a necessidade de possuir uma bicicleta. O usuário pode retirar o equipamento em uma estação ou ponto autorizado e devolvê-lo em outro local, conforme as regras de cada serviço.

Em Florianópolis, a prefeitura informou a disponibilidade de 420 bicicletas compartilhadas, além de 2.748 patinetes, em dados apresentados durante um evento sobre micromobilidade realizado em 2026. O município relaciona a expansão desses serviços à necessidade de ampliar a infraestrutura e integrar os diferentes modos de deslocamento. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)

O compartilhamento, no entanto, não substitui a rede cicloviária permanente. Sem trajetos seguros e conectados, a disponibilidade de bicicletas pode ficar limitada a áreas específicas e não atender deslocamentos cotidianos de maior distância. A efetividade do serviço depende da distribuição dos equipamentos, do custo, da manutenção e da conexão com o transporte coletivo.

Impactos para mobilidade e qualidade de vida

A ampliação do ciclismo pode produzir efeitos em diferentes áreas da vida urbana. Para os deslocamentos curtos, a bicicleta é uma alternativa que ocupa menos espaço viário do que o automóvel. Também pode contribuir para reduzir congestionamentos e emissões, desde que faça parte de uma política integrada de mobilidade e não seja tratada como solução isolada.

Há ainda impactos relacionados à saúde e à qualidade dos espaços públicos. Cidades que estimulam a caminhada e o uso da bicicleta tendem a discutir calçadas, travessias, arborização, iluminação e convivência entre os usuários. A rua deixa de ser planejada exclusivamente para a circulação de carros e passa a ser considerada também como espaço de convivência e acesso à cidade.

Em Santa Catarina, a variedade de municípios, o crescimento urbano, o turismo e a presença de rotas de treinamento e cicloturismo tornam o planejamento cicloviário uma tarefa que precisa considerar diferentes realidades. As soluções adotadas em uma cidade litorânea podem não ser adequadas para municípios do Vale do Itajaí, do Norte ou da Serra, onde topografia, clima, ocupação urbana e perfil de deslocamento são distintos.

Próximos passos dependem de planejamento

O avanço do ciclismo nas cidades catarinenses dependerá da capacidade de transformar diretrizes em obras, manutenção, fiscalização e dados públicos. A criação do SIMCiclo pode contribuir para acompanhar a evolução da infraestrutura e identificar locais que exigem mais atenção, desde que as informações sejam atualizadas e utilizadas na formulação das políticas.

Também será necessário aproximar os planos estaduais e municipais. Uma rede cicloviária eficiente não deve parar nos limites administrativos quando os deslocamentos cotidianos atravessam bairros, cidades conurbadas ou áreas metropolitanas. A integração regional é especialmente importante em locais onde moradores trabalham, estudam ou utilizam serviços em municípios diferentes.

O cenário indica que a bicicleta ganhou espaço permanente no debate sobre o futuro urbano de Santa Catarina. O desafio agora é garantir que esse crescimento seja acompanhado por segurança, conectividade e acesso para diferentes públicos. Mais do que ampliar a quantidade de quilômetros construídos, as cidades precisam formar redes funcionais, mantidas e integradas ao restante da mobilidade.