As corridas de montanha em Santa Catarina vêm ganhando espaço entre atletas que buscam mais do que velocidade em percursos de asfalto. A combinação de trilhas, praias, dunas, bosques e terrenos com diferentes níveis de dificuldade ampliou o interesse pelo trail run e ajudou a formar uma agenda própria de competições no estado.
O movimento passou a contar, em 2026, com um circuito estadual organizado pela Federação Catarinense de Atletismo (FCA). A iniciativa reúne seis provas oficiais, cria um ranking para os participantes e estimula a integração entre atletas, assessorias esportivas e organizadores. O circuito também permite a participação de corredores federados e não federados, o que amplia a porta de entrada para a modalidade. (roadrunners.run)
Uma modalidade que exige adaptação
Embora muitas vezes seja tratada como uma extensão da corrida de rua, a corrida de montanha apresenta características próprias. O atleta precisa lidar com subidas, descidas, pedras, lama, areia, raízes, mudanças de ritmo e trechos estreitos. A distância, por si só, não determina o grau de dificuldade: um percurso curto pode exigir mais esforço do que uma prova longa em terreno regular.
Em Santa Catarina, a variedade geográfica favorece esse tipo de competição. O litoral oferece trajetos com praias, costões, dunas e áreas de restinga. No interior e nas regiões serranas, os corredores encontram elevações, estradas rurais e trilhas com maior exigência técnica. Essa diversidade permite que a modalidade reúna desde iniciantes em distâncias menores até atletas preparados para provas de média e longa duração.
O diretor técnico do circuito Mountain Do, Kiko Santos, afirmou que cada ambiente exige uma estratégia diferente. Segundo ele, fatores como solo arenoso, pedras soltas, trilhas técnicas, calor e vento mudam a forma de correr e exigem que o competidor conheça o percurso antes da largada. (ge.globo.com)
Circuito estadual organiza a temporada
O Circuito Catarinense de Trail Run 2026 foi criado com o objetivo de fortalecer e expandir a corrida em trilhas e montanhas no estado. O calendário oficial reúne seis etapas: Night Run Costão do Santinho, em Florianópolis; Cross Country, em Timbó; Mountain Do Rosa, em Imbituba; Costa Esmeralda Trail Run, entre Bombinhas e Porto Belo; Indomit Trail, em Bombinhas; e Mons Ultra Trail, em Nova Trento.
As provas selecionadas têm distâncias oficiais entre 8 km e 12 km na principal categoria do circuito. A organização considera critérios como experiência dos promotores, distribuição regional, número de inscritos, regularização documental e ausência de conflito entre as datas. A proposta é oferecer uma temporada com diferentes cenários, sem concentrar as competições em uma única área do estado. (roadrunners.run)
O sistema de pontuação valoriza a participação nas etapas e os resultados obtidos pelos corredores. Para a classificação final, são consideradas as quatro melhores pontuações de cada atleta. Quem concluir pelo menos cinco das seis provas recebe a mandala oficial do circuito. As assessorias esportivas também participam de um ranking baseado no número de atletas inscritos.
Mais do que distribuir premiações, o formato cria uma referência comum para uma modalidade que durante anos se desenvolveu de maneira pulverizada, com provas independentes e grupos de treinamento espalhados por diferentes cidades. A existência de um calendário reconhecido pela federação facilita o planejamento dos atletas e dá maior visibilidade aos eventos.
Provas atraem diferentes perfis de corredores
O crescimento das corridas de montanha não se limita aos atletas de alto rendimento. As provas costumam oferecer distâncias variadas, o que permite a participação de pessoas que estão migrando da corrida de rua, praticantes de atividades ao ar livre e corredores interessados em completar um desafio pessoal.
Em 2026, o Mountain Do realizou etapas em Santa Catarina com percursos de 5 km, 11 km e 20 km na Praia do Rosa, em Imbituba. A programação também incluiu provas em São José e no Costão do Santinho, em Florianópolis, com opções de 4 km a 42 km, conforme a etapa. (ge.globo.com)
A variedade de distâncias ajuda a aproximar o público iniciante e, ao mesmo tempo, mantém espaço para quem busca desafios mais longos. Em uma mesma arena, podem estar corredores que fazem sua primeira prova em trilha e ultramaratonistas acostumados a permanecer várias horas em terrenos acidentados.
Para os atletas catarinenses, a proximidade das competições também reduz custos e facilita a participação. Em vez de viajar para outros estados em busca de provas semelhantes, os corredores encontram opções no litoral, no Vale do Itajaí, na Grande Florianópolis e em regiões do interior.
Treinamento muda fora do asfalto
A preparação para uma corrida de montanha exige adaptações. O treino precisa incluir fortalecimento muscular, equilíbrio, mobilidade e exercícios que reproduzam subidas e descidas. A resistência cardiovascular continua importante, mas não é suficiente para enfrentar mudanças constantes de inclinação e terreno.
As descidas merecem atenção especial. A corrida em declive aumenta a necessidade de controle corporal e pode provocar sobrecarga quando o atleta tenta manter velocidade excessiva. Em orientação divulgada antes de uma etapa do Mountain Do, a organização destacou que muitos corredores se preparam para subir, mas não treinam adequadamente a descida. A recomendação foi trabalhar o controle do movimento, testar os equipamentos e evitar experimentar suplementos novos no dia da prova. (ge.globo.com)
Outro ponto importante é o ritmo. Em uma corrida de rua, o atleta costuma acompanhar o desempenho pelo tempo por quilômetro. Na trilha, essa referência perde parte da utilidade porque o ritmo varia de acordo com o relevo. Uma estratégia mais segura é controlar o esforço, observar o terreno e alternar corrida e caminhada nas subidas mais íngremes quando necessário.
O equipamento também precisa ser escolhido de acordo com o percurso. Tênis com solado adequado, roupas leves, proteção contra chuva ou frio, hidratação e acessórios de segurança podem fazer diferença. Em provas mais longas ou técnicas, os regulamentos podem estabelecer itens obrigatórios e pontos de apoio ao longo do trajeto.
Segurança e preservação das trilhas
O avanço das corridas em ambientes naturais aumenta a responsabilidade de organizadores e participantes. A sinalização do percurso, o controle de acesso, a presença de equipes de apoio e a definição de pontos de hidratação são elementos essenciais para reduzir riscos.
Em etapas realizadas em áreas protegidas, a operação precisa considerar a conservação do ambiente. Na prova do Mountain Do no Costão do Santinho, em Florianópolis, parte do valor das inscrições foi destinada ao apoio à gestão de unidades de conservação do município. O percurso também passou por área protegida, o que exigiu atenção ao limite de participantes e ao impacto sobre as trilhas. (ge.globo.com)
Na Praia do Rosa, a organização informou que estabeleceu um limite de 1.500 atletas para evitar congestionamento e reduzir a pressão sobre os caminhos naturais. A medida mostra como a capacidade de uma prova não depende apenas do espaço disponível para largada e chegada, mas também da resistência das trilhas e da necessidade de preservar o local.
Para os corredores, a recomendação é respeitar as áreas demarcadas, não deixar resíduos, evitar atalhos e seguir as orientações das equipes. Em percursos compartilhados com moradores, turistas ou outros usuários, também é necessário reduzir a velocidade e manter atenção redobrada.
Santa Catarina amplia presença no trail run
A criação do circuito estadual ocorre em um momento de expansão da modalidade no calendário esportivo catarinense. Além das etapas oficiais, listas de eventos registram provas de trail run em cidades como Campo Alegre, Paulo Lopes, São Miguel do Oeste, Bombinhas, Nova Trento e Concórdia. A oferta varia entre corridas curtas, provas de montanha e desafios de longa distância.
Esse cenário favorece o surgimento de grupos de treinamento, assessorias especializadas e novas experiências para atletas de diferentes níveis. Também cria oportunidades para municípios que desejam associar turismo, esporte e valorização de áreas naturais, desde que o planejamento considere a infraestrutura local e os limites ambientais.
A Federação Catarinense de Atletismo mantém em seu calendário competições e informações relacionadas às corridas realizadas no estado. A entidade também disponibiliza canais para consulta de eventos, regulamentos e resultados oficiais. (fcatletismo.org.br)
O crescimento da modalidade, no entanto, não deve ser medido apenas pelo número de provas. A consolidação das corridas de montanha depende da qualidade dos percursos, da segurança, da transparência nas inscrições, do respeito às áreas naturais e da capacidade de oferecer condições adequadas aos atletas.
Um novo caminho para os corredores catarinenses
As corridas de montanha conquistam atletas catarinenses porque combinam competição, contato com a natureza e desafios diferentes dos encontrados no asfalto. Para alguns, representam uma forma de diversificar o treinamento. Para outros, são uma porta de entrada para o esporte de aventura ou o início de uma trajetória em provas de resistência.
Com um circuito estadual estruturado e um calendário que percorre diferentes regiões, Santa Catarina passa a oferecer condições mais consistentes para o desenvolvimento do trail run. A tendência é que a modalidade continue atraindo corredores, assessorias e organizadores, desde que o crescimento seja acompanhado por planejamento, formação técnica e preservação dos ambientes que dão identidade às provas.


