Os costumes catarinenses são resultado do encontro entre diferentes povos e modos de vida. Em Santa Catarina, tradições indígenas, africanas, portuguesas, açorianas, alemãs, italianas, polonesas, ucranianas e de outros grupos aparecem na alimentação, nas festas, na religiosidade, na arquitetura, no trabalho e na convivência entre vizinhos.
Essa diversidade também faz com que não exista um único modo de ser catarinense. Os hábitos do litoral são diferentes dos costumes da Serra, do Vale do Itajaí, do Oeste e do Sul do estado. Ainda assim, algumas práticas atravessam gerações e permanecem presentes no cotidiano de muitas comunidades.
Chimarrão e conversa ao redor da mesa
Na Serra Catarinense e em áreas influenciadas pela cultura gaúcha, o chimarrão é mais do que uma bebida quente. A cuia costuma acompanhar encontros familiares, visitas, conversas entre amigos e momentos de descanso. O hábito está associado à hospitalidade e à convivência, especialmente em períodos de temperaturas mais baixas.
O costume também aparece em eventos tradicionalistas, rodas de conversa e atividades ligadas à vida rural. Em municípios serranos, o chimarrão divide espaço com causos, músicas nativistas e histórias transmitidas oralmente entre as gerações. A Prefeitura de São Joaquim registra a presença das rodas de chimarrão e de vestimentas de influência gaúcha entre as manifestações culturais do município.
O consumo da bebida não se limita à Serra. Por causa da circulação de pessoas entre os estados do Sul, o chimarrão também é encontrado em diferentes regiões catarinenses, com formas variadas de preparo e de compartilhamento.
Pinhão: alimento, memória e encontro
O pinhão, semente da araucária, ocupa lugar de destaque nos hábitos alimentares de Santa Catarina. Durante os meses mais frios, ele costuma ser cozido, assado ou utilizado em receitas preparadas em casa. O alimento também aparece em festas, feiras e encontros comunitários.
Na Serra, o pinhão é associado a pratos como o entrevero e a receitas que combinam carnes, legumes e ingredientes locais. Também pode ser preparado na chapa do fogão a lenha, uma prática ligada à memória das noites de inverno e à vida nas áreas rurais.
Mais do que um ingrediente, o pinhão representa uma relação cultural com a paisagem da araucária. A coleta, o preparo e o consumo fazem parte de lembranças familiares e de celebrações regionais, como a Festa Nacional do Pinhão, em Lages. O evento reúne gastronomia, música e manifestações ligadas aos costumes serranos.
Pesca artesanal e relação com o mar
No litoral catarinense, a pesca artesanal continua ligada ao cotidiano de diversas comunidades. A atividade envolve técnicas, instrumentos, conhecimentos sobre o clima e observação do comportamento das águas. Em alguns municípios, a pesca também influencia a culinária, o calendário de festas e a identidade dos bairros próximos às praias e lagoas.
A pesca da tainha é um dos exemplos mais conhecidos. Em localidades litorâneas, a temporada mobiliza pescadores, famílias e moradores que acompanham a movimentação das redes e dos barcos. Em Bombinhas, a pesca da tainha com arrastão é descrita como uma prática tradicional realizada principalmente nos meses de junho e julho.
Esse costume não deve ser entendido apenas como uma atividade econômica. Ele envolve formas de cooperação, divisão de tarefas e transmissão de conhecimentos entre gerações. Em comunidades de base açoriana, a relação com o mar também aparece na fabricação de redes, tarrafas, barcos de madeira e outros objetos ligados à pesca.
Boi de mamão e as manifestações do litoral
O boi de mamão é uma das expressões folclóricas mais conhecidas de Santa Catarina, principalmente no litoral. A manifestação combina música, canto, dança, personagens e encenação. A história costuma girar em torno da morte e da ressurreição do boi, com variações de acordo com a comunidade ou o grupo responsável pela apresentação.
As apresentações podem ocorrer em festas comunitárias, escolas, eventos culturais e celebrações de fim de ano. A brincadeira envolve crianças, jovens e adultos, além de pessoas responsáveis pela confecção das figuras, dos figurinos e dos instrumentos.
O boi de mamão também mostra como uma tradição pode mudar sem desaparecer. Cada grupo adapta músicas, personagens, coreografias e formas de apresentação. Em vez de permanecer congelado no passado, o folguedo continua sendo recriado por novas gerações.
Terno de Reis, festas religiosas e devoção popular
As festas religiosas ocupam espaço importante nos costumes catarinenses. No litoral, o Terno de Reis é uma das tradições de origem açoriana que permanecem associadas ao período entre o Natal e o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro. Grupos percorrem casas ou participam de apresentações com cantos, instrumentos e símbolos religiosos.
Outra manifestação presente em comunidades de origem açoriana é a Bandeira do Divino. A prática reúne fé, música, visitas e celebrações coletivas. Em algumas localidades, a bandeira percorre residências e é recebida pelos moradores como parte de um calendário religioso que se repete anualmente.
Essas práticas ajudam a preservar vínculos comunitários. A preparação envolve ensaios, organização de refeições, produção de enfeites e participação de famílias inteiras. Muitas vezes, o valor da tradição está tanto no ritual quanto no encontro entre moradores.
A Fundação Catarinense de Cultura considera que celebrações, saberes e modos de fazer podem integrar o patrimônio cultural imaterial do estado. O reconhecimento leva em conta a importância dessas práticas para a memória, a identidade e a formação das comunidades.
Festas de origem alemã e italiana
Em cidades do Vale do Itajaí e de outras regiões colonizadas por imigrantes europeus, as festas comunitárias preservam músicas, danças, comidas e formas de organização herdadas de diferentes grupos. As celebrações de origem alemã são especialmente conhecidas por bandas, danças folclóricas, trajes tradicionais e pratos preparados à base de carnes, massas, pães e cerveja.
A Oktoberfest de Blumenau se tornou uma das festas mais conhecidas de Santa Catarina e foi reconhecida como patrimônio cultural do estado pela Lei estadual nº 18.919, de 2024, segundo informações divulgadas pela Assembleia Legislativa. Embora seja um grande evento turístico, sua existência também se relaciona à atuação de clubes, sociedades recreativas, grupos de dança e associações que mantêm práticas culturais ao longo do ano.
Entre descendentes de italianos, a produção de massas, pães, vinhos, queijos e receitas familiares aparece em diferentes áreas do estado. Almoços comunitários, festas de igreja e encontros de família costumam reforçar esses hábitos, que passaram por adaptações ao incorporar ingredientes e costumes brasileiros.
Culinária feita em casa
A culinária é uma das formas mais visíveis de transmissão dos costumes catarinenses. Receitas de família circulam entre avós, pais e filhos e, em muitos casos, são preparadas sem medidas exatas. O conhecimento é passado pela observação, pelo hábito e pela repetição.
No litoral, peixes, frutos do mar, farinha de mandioca, pirão e preparos com tainha aparecem em diferentes receitas. A influência açoriana também pode ser percebida em doces, pães, biscoitos e pratos feitos com milho, mandioca e polvilho.
Na Serra, o pinhão, o churrasco, o arroz de carreteiro e os pratos preparados no fogão a lenha estão associados à tradição campeira. No Vale do Itajaí e em áreas de colonização europeia, receitas de origem alemã e italiana convivem com ingredientes locais e com técnicas desenvolvidas pelas famílias ao longo do tempo.
Estudos e publicações da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina destacam o papel das receitas regionais e familiares na preservação da história cultural das comunidades. A cozinha, nesse sentido, funciona como espaço de memória e adaptação.
Artesanato, renda de bilro e trabalho comunitário
O artesanato também faz parte do conjunto de costumes catarinenses. No litoral, a renda de bilro é associada à herança açoriana e continua sendo produzida por artesãs em comunidades tradicionais. O trabalho exige técnica, paciência e conhecimento transmitido entre gerações.
Além da renda, aparecem objetos feitos com fibras, madeira, barro e materiais aproveitados do ambiente local. A olaria, a produção de redes de pesca e a construção artesanal de embarcações são exemplos de saberes ligados a atividades econômicas e à vida cotidiana.
Esses trabalhos podem ter função prática, decorativa ou comercial. Em muitos casos, também atuam como forma de fortalecer a autonomia de artesãos e artesãs e de manter vivas referências culturais que não estão presentes apenas em museus ou apresentações oficiais.
Trajes, danças e sociedades recreativas
Em várias cidades catarinenses, roupas típicas são usadas em festas, apresentações e eventos comunitários. Na Serra, bombachas, ponchos, lenços, botas e peças de couro aparecem associadas à cultura campeira. Em regiões de influência germânica, vestidos, coletes, chapéus e outros elementos integram grupos de dança e celebrações.
As sociedades recreativas, clubes de caça e tiro e associações culturais também tiveram papel importante na organização da vida comunitária em áreas de colonização alemã. Essas instituições promovem bailes, competições, apresentações musicais e encontros de famílias.
O uso de trajes tradicionais não significa que essas roupas façam parte da rotina de todos os moradores. Em geral, elas são utilizadas em situações específicas, mas ajudam a representar visualmente as origens e as histórias das comunidades.
Uma identidade formada por muitas influências
Os costumes catarinenses não pertencem a um único grupo nem podem ser resumidos a uma imagem regional. A identidade cultural de Santa Catarina foi formada por encontros, trocas e transformações entre povos indígenas, comunidades afro-brasileiras, descendentes de açorianos, imigrantes europeus e migrantes de outras partes do país.
Por isso, o cotidiano catarinense reúne práticas diferentes: o peixe preparado no litoral, o pinhão consumido na Serra, o chimarrão compartilhado em rodas de conversa, as festas de outubro, os cantos do Terno de Reis, as apresentações do boi de mamão e as receitas preservadas dentro das famílias.
Essas tradições continuam vivas quando são praticadas, ensinadas e adaptadas. A cultura não se limita às festas mais conhecidas ou aos eventos voltados aos visitantes. Ela também está nas refeições de domingo, nos encontros de vizinhos, no trabalho artesanal, na fé, na música e nos costumes que seguem presentes, muitas vezes de forma discreta, na rotina das comunidades.
As referências culturais utilizadas nesta reportagem incluem informações da Fundação Catarinense de Cultura, de órgãos municipais de turismo e cultura e de publicações sobre o patrimônio imaterial de Santa Catarina.



