sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Esportes

Esporte adaptado em Santa Catarina amplia inclusão e oportunidades para pessoas com deficiência

O esporte adaptado em Santa Catarina reúne iniciativas voltadas à iniciação esportiva, à participação social e ao alto rendimento. A atuação de órgãos públicos, universidades, associações e municípios amplia o acesso de pessoas com deficiência, embora persistam obstáculos relacionados à acessibilidade, à formação profissional e à oferta regular de atividades.

O esporte adaptado em Santa Catarina vem sendo desenvolvido por meio de programas públicos, projetos sociais, universidades, clubes e associações especializadas. As iniciativas incluem atividades de iniciação esportiva, práticas de participação, competições escolares e treinamento de alto rendimento para pessoas com deficiência.

Mais do que preparar atletas para torneios, o paradesporto pode contribuir para a autonomia, a saúde, a convivência social e o reconhecimento das capacidades individuais. Em Santa Catarina, essa política é executada em diferentes níveis, desde ações voltadas a crianças e adolescentes até programas destinados a atletas que representam o estado em competições nacionais e internacionais.

O que é esporte adaptado

Esporte adaptado é a prática esportiva organizada com regras, equipamentos, espaços ou metodologias ajustados às características dos participantes. Dependendo da modalidade e do tipo de deficiência, podem ser necessárias adaptações na quadra, nos materiais utilizados, na comunicação ou na forma de orientação dos atletas.

O conceito abrange tanto modalidades criadas especificamente para pessoas com deficiência quanto esportes convencionais que passaram por adequações. Atletismo, natação, basquete em cadeira de rodas, bocha, goalball, tênis de mesa, parabadminton e parataekwondo estão entre as práticas presentes em projetos e competições paradesportivas.

A participação pode ocorrer em três dimensões principais: educacional, voltada ao desenvolvimento de crianças e adolescentes; de participação, destinada à atividade física, ao lazer e à qualidade de vida; e de rendimento, direcionada ao treinamento sistemático e às competições. Essa divisão também aparece em políticas de fomento ao paradesporto adotadas em Santa Catarina. (portal.doe.sea.sc.gov.br)

Atuação do poder público em Santa Catarina

A Fundação Catarinense de Esporte, a Fesporte, é uma das instituições responsáveis por organizar competições e apoiar ações esportivas no estado. Entre as atividades administradas pela fundação estão os Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina, conhecidos como Parajasc, além de iniciativas relacionadas ao esporte escolar e ao incentivo a atletas.

Os Parajasc têm entre seus objetivos promover o esporte adaptado, estimular o surgimento de novos talentos e favorecer a integração social das pessoas com deficiência por meio da prática esportiva. A competição reúne municípios e modalidades distintas, funcionando também como espaço de visibilidade para atletas, treinadores e instituições que atuam no setor. (fesporte.sc.gov.br)

Em 2024, a Fesporte informou que o paradesporto seria uma prioridade da instituição para 2025. A proposta apresentada incluía a ampliação da articulação com clubes credenciados e o fortalecimento de ações capazes de oferecer oportunidades esportivas a pessoas com deficiência em diferentes níveis de prática. (fesporte.sc.gov.br)

Outro instrumento é o Programa de Incentivo ao Esporte, que passou a contemplar projetos específicos de apoio ao paradesporto. O edital destinado ao setor prevê propostas de rendimento, participação e educação, com ações de planejamento, capacitação, organização de eventos e atendimento continuado. O documento também estabelece que os beneficiários diretos não devem pagar taxas ou contribuições pelo acesso às atividades financiadas pelo projeto. (fesporte.sc.gov.br)

Iniciação esportiva e atendimento especializado

A Fundação Catarinense de Educação Especial oferece atividades paradesportivas para pessoas com deficiência a partir dos oito anos de idade. O atendimento inclui orientação para a prática de modalidades, iniciação esportiva e treinamento, com objetivos relacionados à atividade física, à saúde e ao desenvolvimento esportivo.

Para a matrícula, a instituição informa que é necessário apresentar diagnóstico de deficiência e ter idade igual ou superior a oito anos. As atividades são realizadas pelo Centro de Educação Física da fundação, em São José, na Grande Florianópolis. (fcee.sc.gov.br)

Esse tipo de serviço representa uma das portas de entrada para o esporte adaptado. A iniciação permite que a criança ou o adolescente conheça diferentes modalidades, desenvolva habilidades motoras e identifique, com apoio de profissionais, qual prática é mais adequada às suas características e interesses.

O acesso precoce também pode facilitar a identificação de talentos esportivos. No entanto, a iniciação não deve ser limitada ao objetivo de formar atletas de alto rendimento. Para muitas pessoas, o esporte é principalmente uma oportunidade de convivência, lazer, fortalecimento físico e participação comunitária.

Universidades ampliam a formação e o atendimento

As universidades também desempenham papel importante na expansão do esporte adaptado. Em Florianópolis, o Centro de Referência Paralímpico da Universidade Federal de Santa Catarina oferece atividades gratuitas à comunidade e atua com atletismo, natação e goalball.

Além de estimular a prática esportiva, o centro tem como proposta acompanhar atletas desde a base até o alto rendimento. A estrutura também pode funcionar como campo de formação para estudantes e profissionais de áreas como Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia e Medicina do Esporte. (alesc.sc.gov.br)

A integração entre esporte e formação profissional é estratégica porque o atendimento a pessoas com deficiência exige conhecimento técnico e planejamento. Treinadores, professores, fisioterapeutas e gestores precisam compreender diferentes tipos de deficiência, regras de classificação esportiva, uso de equipamentos e recursos de acessibilidade.

Esse conhecimento pode melhorar a qualidade das atividades oferecidas e reduzir o risco de que projetos inclusivos dependam apenas da iniciativa individual de um profissional. A continuidade tende a ser maior quando há equipes preparadas, recursos definidos e articulação entre escolas, serviços de saúde, clubes e órgãos públicos.

Projetos municipais e diversidade de modalidades

A expansão do paradesporto também ocorre por meio de projetos municipais e de entidades da sociedade civil. Documentos oficiais publicados em Santa Catarina listam propostas em áreas como atletismo paralímpico, natação adaptada, basquete em cadeira de rodas, tênis de mesa, parabadminton, parasurfe, corrida inclusiva, goalball e atividades voltadas a pessoas autistas.

Entre os projetos registrados estão iniciativas de municípios como São Joaquim, Timbó, Balneário Piçarras, Camboriú, Presidente Getúlio e Maravilha, além de ações desenvolvidas por associações e federações esportivas. A relação indica que o movimento não está concentrado apenas na capital ou nos maiores centros urbanos. (portal.doe.sea.sc.gov.br)

Em Maravilha, no Oeste catarinense, uma política municipal de esporte passou a reunir instrumentos como legislação de incentivo, programa de fomento, Bolsa Atleta e um Centro de Referência Paralímpico. Segundo a descrição da iniciativa, o centro ampliou a oferta de uma para cinco modalidades e passou a atender atletas de Maravilha e de municípios próximos. (boaspraticas.ciga.sc.gov.br)

A descentralização é relevante porque o deslocamento até cidades maiores pode ser um obstáculo para famílias de baixa renda ou que vivem em regiões distantes. Quando há polos locais de treinamento, aumentam as possibilidades de frequência, acompanhamento profissional e participação em competições.

Bolsa Atleta e apoio ao rendimento

O desenvolvimento do esporte de rendimento depende de treinamento regular, equipamentos, viagens, avaliações físicas e participação em competições. Para ajudar a custear essa trajetória, Santa Catarina mantém o Bolsa Atleta, programa que contempla atletas e paratletas de diferentes níveis, conforme critérios previstos na legislação e nos editais correspondentes.

A Lei Estadual nº 19.122, de 10 de dezembro de 2024, alterou a legislação da Bolsa-Atleta para equiparar o surdoatleta aos beneficiários do programa. A norma inclui atletas de modalidades olímpicas, paralímpicas e surdolímpicas, além de praticantes de modalidades previstas no calendário anual da Fesporte. (leis.alesc.sc.gov.br)

Também foi aprovada a ampliação do auxílio para atletas-guias que acompanham paratletas com deficiência visual nas classes T11 e T12, conforme os critérios do Comitê Paralímpico Brasileiro. O apoio reconhece que algumas provas dependem diretamente da atuação conjunta entre o atleta e o guia. (alesc.sc.gov.br)

Medidas desse tipo ajudam a diminuir parte dos custos associados à carreira esportiva. Ainda assim, o benefício financeiro não substitui a necessidade de centros de treinamento, transporte acessível, profissionais especializados, calendário competitivo e acompanhamento multidisciplinar.

Desafios para a inclusão pelo esporte

Apesar dos avanços, a inclusão esportiva enfrenta barreiras que vão além da existência de uma modalidade ou de uma competição. A acessibilidade física dos espaços é um dos principais pontos. Rampas, banheiros adaptados, pisos adequados, sinalização, transporte e áreas de circulação precisam ser planejados para diferentes necessidades.

Também há desafios relacionados à informação. Muitas famílias não sabem onde encontrar atividades, quais documentos são exigidos ou se existem projetos gratuitos próximos de casa. A divulgação fragmentada pode reduzir a procura e dificultar o preenchimento das vagas disponíveis.

Outro obstáculo é a continuidade. Projetos financiados por editais ou parcerias precisam de planejamento para evitar interrupções entre uma etapa e outra. A manutenção de profissionais, equipamentos e locais de treinamento é essencial para que o participante não tenha de recomeçar o processo a cada mudança administrativa ou encerramento de convênio.

A formação de professores e treinadores também merece atenção. A inclusão depende de profissionais capazes de adaptar atividades sem reduzir a expectativa de desempenho dos participantes. O atendimento deve considerar as potencialidades de cada pessoa, respeitar seus limites e oferecer condições seguras para a evolução esportiva.

Esporte como direito e espaço de participação

O esporte adaptado em Santa Catarina cumpre funções que ultrapassam a competição. Para crianças e adolescentes, pode favorecer o desenvolvimento motor, a autonomia e a convivência com outras pessoas. Para adultos, pode ampliar a participação social, a qualidade de vida e o acesso a redes de apoio. Para atletas de rendimento, representa uma possibilidade de carreira e reconhecimento esportivo.

O fortalecimento desse setor depende da integração entre governo estadual, prefeituras, escolas, universidades, entidades especializadas, clubes, famílias e pessoas com deficiência. Também exige políticas permanentes, metas públicas, avaliação dos resultados e transparência na aplicação dos recursos.

Ao ampliar o acesso e garantir condições adequadas de prática, Santa Catarina pode consolidar uma rede esportiva mais inclusiva. O desafio é fazer com que as oportunidades não se restrinjam aos municípios com maior estrutura e cheguem a pessoas de diferentes idades, deficiências e condições sociais.

O avanço do paradesporto, portanto, não deve ser medido apenas pelo número de medalhas. A inclusão também se revela na quantidade de pessoas que conseguem iniciar uma atividade, permanecer nela, competir quando desejam e ocupar os espaços esportivos com autonomia e igualdade de oportunidades.