Entre as manifestações que ajudam a explicar a formação cultural de Santa Catarina, o Terno de Reis ocupa um lugar de destaque. A tradição combina música, religiosidade, poesia popular e convivência comunitária em cortejos que costumam ocorrer entre o Natal e o Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro.
Associado principalmente à influência luso-açoriana no litoral catarinense, o Terno de Reis atravessou gerações e permaneceu presente em comunidades urbanas e rurais. A prática é reconhecida como uma das manifestações tradicionais do estado e revela como a música pode funcionar como instrumento de memória, pertencimento e transmissão de costumes.
Embora seja uma referência importante, o Terno de Reis não resume sozinho a identidade cultural de Santa Catarina. O estado reúne heranças açorianas, alemãs, italianas, polonesas, ucranianas, indígenas, africanas e de outros grupos. Nesse conjunto diverso, a cantoria de reis representa sobretudo a experiência histórica de comunidades do litoral e de áreas ligadas à colonização portuguesa.
O que é o Terno de Reis
O Terno de Reis é uma manifestação tradicional formada por cantadores e instrumentistas que percorrem casas e comunidades durante o ciclo natalino. Os grupos anunciam o nascimento de Jesus, fazem referências aos Reis Magos e levam mensagens de fé, bons votos e celebração aos moradores.
Em Santa Catarina, a tradição é descrita como uma celebração que ocorre entre o Natal e o Dia de Reis. Os cortejos podem ser acompanhados por violas, rabecas, banjos, violões, pandeiros, maracás e sanfonas, além do canto coletivo de homens e mulheres. A formação varia de acordo com a comunidade e com os instrumentos disponíveis. (portal.iphan.gov.br)
O grupo costuma levar uma bandeira de reis, elemento simbólico que segue à frente do cortejo. A bandeira pode apresentar imagens relacionadas à adoração dos Reis Magos, à Sagrada Família ou a outros temas religiosos. O objeto é conduzido por um integrante responsável por representar a tradição durante as visitas.
A estrutura dos grupos também pode incluir mestre e contramestre, funções ligadas à condução da cantoria e à organização dos versos. Em algumas comunidades, os cantos são compostos ou adaptados pelos próprios participantes, o que permite que cada terno desenvolva características próprias.
Herança açoriana no litoral de Santa Catarina
A presença do Terno de Reis em Santa Catarina está ligada à chamada cultura de base açoriana, expressão usada para identificar costumes, crenças, formas de sociabilidade e manifestações artísticas preservadas por comunidades do litoral.
Segundo o Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina, a identidade cultural do litoral catarinense recebeu forte influência dos grupos açorianos que chegaram ao Sul do Brasil em meados do século 18. Essa herança aparece em manifestações religiosas, festas populares, lendas, hábitos, arquitetura, culinária e práticas musicais. (nea.ufsc.br)
O Terno de Reis faz parte desse conjunto porque reúne elementos centrais da vida comunitária tradicional: a circulação pelas casas, a participação de famílias, a religiosidade popular e a transmissão oral de melodias e versos. Em vez de depender de uma apresentação em palco, a prática acontece em contato direto com os moradores.
Essa característica ajuda a explicar sua permanência. A música não é apenas executada para um público; ela é incorporada a uma celebração que envolve quem canta, quem toca, quem recebe o grupo e quem ajuda a organizar o cortejo.
Uma tradição feita de música e convivência
O Terno de Reis tem uma dimensão musical evidente, mas seu significado vai além dos sons e das melodias. A cantoria organiza encontros e reforça vínculos entre vizinhos, parentes e diferentes gerações.
Em muitas localidades, o grupo é formado por pessoas que aprenderam a tradição dentro da própria família. Crianças, jovens, adultos e idosos podem participar de diferentes maneiras, seja cantando, tocando instrumentos, conduzindo a bandeira ou acompanhando as visitas.
A oralidade é um dos principais mecanismos de preservação. Os participantes aprendem as músicas por repetição, observação e convivência, sem depender necessariamente de partituras ou registros formais. Esse processo permite que os repertórios sejam modificados ao longo do tempo, incorporando novos versos e ajustando-se às características de cada comunidade.
Registros de grupos catarinenses mostram a participação de instrumentos como violão, cavaquinho e chocalhos. Em alguns casos, a continuidade da tradição ocorre entre filhos, netos, sobrinhos e outros parentes, o que reforça o caráter familiar e comunitário da manifestação. (blumenau.sc.gov.br)
O ciclo natalino e o sentido religioso
O período de apresentação é um dos aspectos mais conhecidos do Terno de Reis. Os grupos costumam se organizar entre o Natal e a celebração do Dia de Reis, em 6 de janeiro. Durante esse intervalo, visitam casas e participam de encontros organizados por comunidades, paróquias, associações e grupos culturais.
A cantoria está relacionada à narrativa cristã da visita dos Reis Magos ao menino Jesus. Por isso, a bandeira, os versos e a ordem do cortejo possuem valor religioso para muitos participantes. Ao mesmo tempo, a tradição também funciona como manifestação cultural, independentemente do grau de participação religiosa de cada pessoa.
Em localidades do litoral, as visitas podem incluir momentos de recepção, alimentação e confraternização. A casa que recebe o grupo torna-se parte da celebração, e a presença dos cantadores é entendida como sinal de respeito, esperança e bons desejos para o novo ano.
Documentos de referência sobre o patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina registram que a prática é especialmente associada às áreas litorâneas de influência luso-açoriana, embora possa aparecer em outras regiões por meio de deslocamentos familiares, migrações e ações de preservação cultural. (portal.iphan.gov.br)
Relação com outras manifestações catarinenses
O Terno de Reis costuma ser lembrado ao lado de outras expressões da cultura popular de Santa Catarina, como o boi de mamão, o pau de fitas, a Bandeira do Divino e a chimarrita.
Essas manifestações não são iguais entre si. O boi de mamão, por exemplo, é um folguedo marcado por personagens, dança, música e uma narrativa própria, com variações entre as regiões do litoral. Já o pau de fitas envolve dança e movimentos coreográficos em torno de um mastro enfeitado. O Terno de Reis, por sua vez, concentra sua força na cantoria, no cortejo e na visita às casas.
Apesar das diferenças, todas essas práticas compartilham a capacidade de reunir pessoas e transmitir referências culturais. Em conjunto, ajudam a preservar formas de expressão que foram construídas antes da expansão dos meios de comunicação de massa e que continuam sendo reelaboradas pelas comunidades.
Preservação e desafios atuais
A continuidade do Terno de Reis depende da participação de novos integrantes e da valorização dos grupos que mantêm a prática ativa. Mudanças nos hábitos sociais, a redução das atividades comunitárias e o envelhecimento de antigos cantadores podem dificultar a transmissão dos repertórios.
Outro desafio é evitar que a tradição seja apresentada apenas como atração folclórica desvinculada de sua história. O Terno de Reis nasceu e se desenvolveu em relações comunitárias concretas. Por isso, sua preservação envolve não somente organizar apresentações, mas também registrar memórias, reconhecer mestres e garantir espaço para a participação das famílias.
Escolas, universidades, centros culturais, grupos religiosos e órgãos públicos podem colaborar por meio de pesquisas, oficinas, gravações, exposições e atividades de educação patrimonial. O Núcleo de Estudos Açorianos da UFSC, por exemplo, promove ações de pesquisa, divulgação e valorização das heranças culturais de base açoriana em Santa Catarina. (nea.ufsc.br)
O registro audiovisual e sonoro também se tornou uma ferramenta importante. Gravações de cantorias, entrevistas com participantes e documentação dos instrumentos ajudam a preservar informações que antes dependiam apenas da memória oral.
Por que o Terno de Reis faz parte da identidade catarinense
A importância do Terno de Reis está na combinação entre música, território e memória. A tradição conecta as comunidades atuais às experiências de famílias que preservaram costumes ao longo do tempo e adaptaram seus repertórios às mudanças sociais.
Ela também mostra que a identidade catarinense não é formada por uma única origem. O Terno de Reis expressa uma parcela importante dessa identidade, especialmente no litoral de influência açoriana, mas convive com outras tradições musicais e culturais presentes no estado.
Quando um grupo percorre as ruas ou visita uma casa para cantar, leva mais do que uma sequência de melodias. Leva uma forma de contar a história da comunidade, de reafirmar vínculos e de marcar a passagem do ano. É nesse sentido que a música tradicional catarinense permanece atual: não apenas como lembrança do passado, mas como prática viva, transmitida e reinventada por quem participa dela.
Preservar o Terno de Reis, portanto, significa reconhecer o valor cultural de seus cantadores, instrumentistas e organizadores. Significa também compreender que o patrimônio imaterial depende de pessoas dispostas a manter a tradição em circulação. Em Santa Catarina, essa cantoria continua sendo uma das expressões mais fortes da memória popular ligada ao ciclo natalino e à herança açoriana.
