sábado, 3 de outubro de 2026
MANCHETES

Festas tradicionais de Santa Catarina movimentam cidades com cultura, turismo e gastronomia

As festas tradicionais de Santa Catarina ocupam espaço central no calendário cultural e turístico do estado. Com música, gastronomia, desfiles e manifestações herdadas de diferentes comunidades, os eventos atraem visitantes, estimulam o comércio e ajudam a preservar identidades locais.

As festas tradicionais de Santa Catarina movimentam cidades de diferentes regiões do estado e transformam costumes locais em atrações capazes de reunir moradores, turistas, comerciantes, artistas e produtores. Ao longo do ano, eventos ligados às culturas germânica, açoriana, italiana, campeira e rural ocupam pavilhões, ruas, praças e centros de eventos.

Mais do que momentos de lazer, essas celebrações funcionam como vitrines da identidade catarinense. Música, dança, trajes típicos, desfiles, gastronomia, artesanato e competições tradicionais ajudam a manter vivas práticas transmitidas entre gerações. Ao mesmo tempo, as festas ampliam a procura por hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços.

O calendário de 2026 mostra a força desse circuito. Em Lages, a Festa Nacional do Pinhão foi realizada entre 22 de maio e 7 de junho e, segundo a prefeitura, movimentou cerca de R$ 90 milhões. No litoral e no Vale do Itajaí, eventos tradicionais voltam a concentrar a programação entre o fim de setembro e o mês de outubro, período marcado por festas como a Marejada, em Itajaí, a Oktoberfest, em Blumenau, e a Fenarreco, em Brusque.

Oktoberfest tornou Blumenau referência nacional

A Oktoberfest Blumenau é o principal exemplo de como uma festa de origem local pode alcançar projeção nacional e internacional. A primeira edição ocorreu em 1984, depois de uma sequência de enchentes que atingiu o Vale do Itajaí. Inspirado no modelo de Munique, na Alemanha, o evento foi criado em um contexto de reconstrução da cidade e passou a reunir elementos da cultura germânica presentes na história de Blumenau.

Na edição inaugural, realizada no antigo pavilhão da Proeb, cerca de 102 mil pessoas participaram da festa. Com o passar dos anos, o evento cresceu, incorporou novos espaços e consolidou atrações como os desfiles, as bandas, as danças folclóricas, os clubes de caça e tiro, os trajes típicos e a gastronomia alemã. (oktoberfestblumenau.com.br)

A festa também ajudou a popularizar símbolos que se tornaram associados à cidade, como o Vovô Chopão, personagem criado para divulgar o evento, e os concursos de chope em metro, entre outras brincadeiras típicas. Os clubes de caça e tiro, que têm presença histórica na região, continuam participando da programação e são apresentados como grupos importantes para a preservação de costumes germânicos.

Em 2026, a 41ª Oktoberfest Blumenau está programada para ocorrer de 7 a 25 de outubro, com 19 dias de programação no Parque Vila Germânica. A agenda mantém a combinação entre música, dança, culinária, desfiles e experiências ligadas à tradição germânica. (oktoberfestblumenau.com.br)

Marejada preserva a herança açoriana de Itajaí

No litoral, a Marejada representa a presença da cultura açoriana e da atividade pesqueira na formação de Itajaí. Criada em 1987, a festa se tornou conhecida como uma das principais celebrações do pescado no país. A sardinha assada na brasa é um dos pratos mais associados ao evento, que também reúne frutos do mar, receitas de inspiração portuguesa, música, dança e manifestações culturais.

A gastronomia ocupa posição central na Marejada. Restaurantes e espaços de alimentação apresentam pratos tradicionais e releituras de receitas ligadas às famílias de origem açoriana. A proposta aproxima visitantes de costumes que fazem parte da vida cotidiana da cidade e reforça a ligação entre a festa, o mar e a história econômica de Itajaí.

A edição de 2025 recebeu 260.090 pessoas em 18 dias, de acordo com dados divulgados pelo município. O evento também serviu como espaço para ações de sustentabilidade, com uso de copos reutilizáveis, distribuição de água e iniciativas para reduzir resíduos descartáveis. (marejada.itajai.sc.gov.br)

Para 2026, a programação está prevista para ocorrer de 1º a 18 de outubro, no Centreventos Governador Luiz Henrique da Silveira. A prefeitura informou que a festa deve manter o foco na gastronomia típica, na música e na valorização da herança cultural portuguesa e açoriana. (itajai.sc.gov.br)

Fenarreco leva a cultura germânica para Brusque

Em Brusque, a Festa Nacional do Marreco, conhecida como Fenarreco, também combina gastronomia, música e costumes de origem germânica. O marreco com repolho-roxo, o chope, as bandas e as grandes mesas coletivas estão entre os elementos que ajudam a caracterizar o evento.

A festa ultrapassa os limites do pavilhão onde é realizada. Durante o período de programação, hotéis, restaurantes, bares, lojas e prestadores de serviços registram aumento na circulação de consumidores. Em 2025, a prefeitura informou que a ocupação média da rede hoteleira havia superado 80% durante o evento. Naquele ano, a Fenarreco recebeu mais de 150 mil pessoas em 11 dias, segundo o município.

O resultado mostra como eventos culturais podem produzir efeitos em diferentes áreas da economia local. A contratação de fornecedores, a venda de alimentos e bebidas, o transporte e o comércio de produtos ligados à festa formam uma cadeia que se amplia com a chegada de visitantes de outras cidades.

A 39ª edição da Fenarreco está prevista para ocorrer de 8 a 18 de outubro de 2026, com entrada gratuita, gastronomia alemã, música germânica, brincadeiras típicas e participação de produtores locais. (brusque.sc.gov.br)

Festa do Pinhão valoriza a identidade da Serra

Na Serra catarinense, a Festa Nacional do Pinhão tem como ponto de partida um dos produtos mais associados à paisagem e à cultura de Lages. O pinhão aparece na gastronomia, nas receitas tradicionais e na programação cultural, ao lado de manifestações ligadas à vida campeira e às tradições serranas.

O evento reúne apresentações musicais, festivais tradicionalistas, concursos, gastronomia e atividades culturais. Entre os destaques estão as Sapecadas, que valorizam a música regional, e o Festival Tradicionalista, voltado a grupos e artistas ligados à cultura da Serra.

Em balanço divulgado após a 36ª edição, realizada em 2026, a Fundação Cultural de Lages informou que a festa movimentou aproximadamente R$ 90 milhões. O município também destacou a participação de mais de 150 artistas nas Sapecadas, 32 composições finalistas e cerca de três mil participantes e familiares no Festival Tradicionalista. (cultura.lages.sc.gov.br)

Os números apresentados pela prefeitura não representam apenas a bilheteria ou o consumo dentro do parque do evento. O impacto se distribui por hotéis, restaurantes, comércio, transporte, serviços temporários e atividades culturais. A festa também amplia a visibilidade de artistas, produtores rurais, cozinheiros e empreendedores da região.

Um calendário formado por diferentes identidades

Embora as festas de outubro sejam as mais conhecidas nacionalmente, o calendário catarinense é mais amplo. Municípios de diferentes regiões promovem eventos ligados à agricultura, à pesca, à religiosidade, às tradições rurais, à imigração e à produção local.

Em Itajaí, por exemplo, a Festa Nacional do Colono valoriza o trabalho no campo por meio de exposições, feiras agropecuárias e agroindustriais, mostra de animais e apresentações culturais. A primeira edição foi realizada em 1981, segundo o portal do município.

Outras cidades também mantêm festas associadas a produtos e costumes específicos, como eventos do vinho, da cebola, do milho, do queijo, da maçã e das tradições italianas. Em Treze Tílias, a herança austríaca influencia a arquitetura, a música, a gastronomia e as manifestações culturais. No Oeste, no Meio-Oeste e no Sul, festas comunitárias e religiosas ajudam a preservar costumes que chegaram com diferentes fluxos migratórios.

Essa diversidade impede que Santa Catarina seja representada por uma única tradição. O estado reúne influências europeias, açorianas, indígenas, afro-brasileiras e rurais, que aparecem de forma distinta em cada região. As festas funcionam, portanto, como espaços de afirmação das identidades municipais e de encontro entre públicos diferentes.

Tradição também exige organização e planejamento

O crescimento desses eventos aumenta a responsabilidade dos organizadores. A realização de grandes festas exige planejamento de segurança, mobilidade, limpeza urbana, atendimento de saúde, acessibilidade, controle de resíduos e estrutura para receber visitantes.

Outro desafio é equilibrar a preservação cultural com a modernização dos eventos. A ampliação do público e a presença de atrações comerciais podem aumentar a visibilidade das festas, mas também exigem cuidado para que os elementos tradicionais não sejam reduzidos a simples cenários ou produtos de consumo.

Em algumas celebrações, a participação de grupos folclóricos, associações comunitárias, clubes culturais e produtores locais ajuda a manter a ligação com a história dos municípios. A presença dessas organizações contribui para que a festa não dependa apenas de uma programação de shows, mas preserve práticas, receitas, músicas, trajes e formas de convivência.

Eventos fortalecem o turismo fora da alta temporada

As festas tradicionais também ajudam a distribuir o fluxo turístico ao longo do ano. Municípios que recebem grande número de visitantes durante os eventos conseguem apresentar outros atrativos, como centros históricos, áreas rurais, trilhas, museus, praias, parques e roteiros gastronômicos.

Esse movimento favorece especialmente pequenos negócios e empreendedores que trabalham com alimentação, hospedagem, artesanato, transporte e experiências culturais. Em muitos casos, a festa é o primeiro contato do visitante com a cidade e pode estimular retornos em outras épocas.

O impacto, porém, não é igual em todos os municípios e depende de fatores como duração do evento, capacidade de hospedagem, infraestrutura, divulgação, acesso rodoviário e condições econômicas. Por isso, avaliações sobre geração de renda e retorno turístico precisam considerar dados de cada edição e não apenas o tamanho do público.

Mesmo com diferenças de escala, as festas tradicionais de Santa Catarina cumprem funções semelhantes: reúnem comunidades, preservam memórias, divulgam sabores e expressões artísticas e criam oportunidades para a economia local. Ao ocupar as ruas e os espaços públicos, elas mostram que cultura e turismo podem caminhar juntos sem perder a relação com a história de cada cidade.