sábado, 3 de outubro de 2026
CIDADES

Criciúma: história, indústria e cultura no Sul catarinense

Criciúma reúne marcas da imigração italiana, da mineração de carvão e da industrialização que transformou o Sul catarinense. Conheça a história, a economia, o patrimônio e as manifestações culturais do município.

Criciúma é uma das principais cidades do Sul de Santa Catarina e concentra, em sua trajetória, alguns dos processos que moldaram a região: a imigração europeia, a expansão da mineração, o crescimento industrial e a formação de uma identidade cultural marcada pela diversidade. O município, que recebeu o título de Capital Nacional do Carvão, também se consolidou como polo regional de comércio, serviços e indústria.

Com população de 231.088 habitantes na prévia do Censo Demográfico de 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Criciúma exerce influência sobre cidades vizinhas e integra a área conhecida como Região Carbonífera de Santa Catarina. Sua história combina a memória do trabalho nas minas com a presença de setores industriais como o cerâmico, o metalmecânico, o plástico, o vestuário e a construção civil. (ftp.ibge.gov.br)

Da colonização italiana à emancipação política

A origem de Criciúma está ligada ao ciclo de imigração europeia do século 19. As primeiras famílias de imigrantes chegaram à região em 1880, procedentes principalmente das áreas de Veneza e Treviso, na Itália. De acordo com registros municipais, eram 139 pessoas que passaram a ocupar o território, organizar propriedades rurais e desenvolver atividades agrícolas.

O núcleo inicial recebeu o nome de Cresciuma, denominação associada à presença de uma espécie de capim abundante na região. A agricultura e o pequeno comércio foram, durante as primeiras décadas, as principais bases da economia local. A comunidade também recebeu, posteriormente, famílias de origem polonesa, alemã e portuguesa, ampliando a composição social do município. (viva.criciuma.sc.gov.br)

Administrativamente, Cresciuma foi inicialmente vinculada a Araranguá. O distrito foi criado em 1892 e permaneceu subordinado ao município vizinho até a emancipação política, formalizada pela Lei Estadual nº 1.516, de 4 de novembro de 1925. A data passou a ser reconhecida como o aniversário de emancipação de Criciúma.

O nome atual foi oficializado em 1948, por meio da Lei Estadual nº 247, de 30 de dezembro daquele ano. A mudança de denominação ocorreu em um período de crescimento urbano e econômico, quando a atividade carbonífera já começava a alterar de forma significativa o cotidiano da cidade. (viva.criciuma.sc.gov.br)

O carvão e a transformação da cidade

A mineração de carvão foi o principal vetor de crescimento de Criciúma ao longo do século 20. A extração começou a ganhar força na primeira metade daquele século e atraiu trabalhadores, empresas e investimentos. O carvão passou a ser utilizado como fonte de energia e matéria-prima, além de estimular a implantação de estruturas de transporte e beneficiamento.

A primeira empresa mineradora instalada em Criciúma foi a Companhia Brasileira Carbonífera de Araranguá, conhecida pela sigla CBCA. A denominação refletia o fato de que, naquele momento, o município ainda pertencia a Araranguá. A exploração inicial ocorreu em áreas próximas à superfície, com métodos rudimentares e transporte do minério em carros de bois até o porto de Laguna.

O avanço da mineração modificou a paisagem e a organização social do município. A ferrovia, construída principalmente para transportar o carvão, também favoreceu a circulação de pessoas e mercadorias. O transporte ferroviário de passageiros começou em 1923, e estações foram implantadas em pontos que ajudaram a estruturar a expansão urbana, incluindo áreas próximas ao centro e aos bairros Sangão e Pinheirinho. (viva.criciuma.sc.gov.br)

O trabalho nas minas envolveu homens, mulheres e, em determinados períodos, crianças. As mulheres que separavam manualmente o carvão eram conhecidas como escolhedeiras. A memória desse trabalho aparece em documentos, relatos e espaços de preservação histórica que ajudam a compreender a dimensão social da mineração, para além de sua importância econômica.

O chamado “ouro negro” gerou riqueza, mas também expôs trabalhadores a condições difíceis e deixou impactos ambientais. A exploração prolongada provocou a degradação de áreas, cursos d’água e solos em diferentes pontos da Região Carbonífera. A recuperação ambiental tornou-se tema de ações judiciais, políticas públicas e programas de monitoramento, em um processo que continua associado ao legado da atividade mineradora. (alesc.sc.gov.br)

Ferrovia, energia e industrialização

A mineração não se limitou à extração do carvão. Ela criou demanda por máquinas, oficinas, energia, transporte, construção e mão de obra especializada. Um dos símbolos desse processo é o locomóvel preservado na Praça da Chaminé, no bairro Próspera. O equipamento, fabricado na Alemanha e datado de 1914, funcionava como gerador elétrico a vapor.

Segundo a Fundação Cultural de Criciúma, o locomóvel foi utilizado para gerar energia destinada às atividades da Companhia Brasileira Carbonífera de Araranguá, além de atender equipamentos urbanos em uma época de infraestrutura ainda limitada. O bem é considerado um exemplo do avanço tecnológico relacionado ao início da industrialização local. (fcc.criciuma.sc.gov.br)

Com o passar das décadas, a economia de Criciúma deixou de depender exclusivamente da extração mineral. A cidade desenvolveu uma base industrial diversificada, com destaque para a produção de revestimentos cerâmicos. O setor passou a se relacionar com empresas metalúrgicas, fabricantes de máquinas, fornecedores de insumos, transportadoras e atividades de comércio exterior.

A indústria cerâmica tornou Criciúma conhecida nacionalmente e fortaleceu a ligação do município com outros centros produtivos do Sul do país. Também ganharam espaço os segmentos de confecção, vestuário, plástico, artefatos de concreto, fibrocimento, metalmecânico, material gráfico e construção civil. A diversificação reduziu a dependência direta do carvão e ampliou a capacidade de geração de empregos e negócios.

Atualmente, a indústria permanece entre os pilares da economia municipal, ao lado do comércio e dos serviços. O município funciona como centro de atendimento para cidades do entorno, concentrando estabelecimentos comerciais, instituições de ensino, serviços de saúde, atividades logísticas e empresas de diferentes portes. (aluno.criciuma.sc.gov.br)

Patrimônio e memória da mineração

A história industrial de Criciúma está presente em equipamentos, monumentos e espaços de memória. Entre os patrimônios relacionados à mineração estão a Caixa de Embarque de Carvão, a Mina Modelo Caetano Sônego e a Ponte de Ferro. Esses locais ajudam a registrar as técnicas de extração, o transporte do minério e as mudanças provocadas pela atividade carbonífera.

Outro ponto de interesse é a Mina de Visitação Octávio Fontana, instalada em uma antiga área de mineração. O espaço foi aberto ao público em 28 de outubro de 2011, depois que estudos apontaram a possibilidade de transformar a antiga Mina São Simão, desativada na década de 1990, em equipamento turístico e educativo.

A visitação permite observar aspectos do trabalho subterrâneo e compreender a evolução da mineração na região. A transformação de uma antiga mina em espaço de visitação também representa uma tentativa de converter parte do passado produtivo em instrumento de educação patrimonial, turismo e reflexão sobre os efeitos econômicos e ambientais da exploração do carvão. (fcc.criciuma.sc.gov.br)

Imigração e diversidade cultural

A identidade cultural de Criciúma foi formada por diferentes grupos que chegaram ao município em momentos distintos. A presença italiana é central na história da colonização, mas a formação social também inclui descendentes de poloneses, alemães, portugueses, árabes, espanhóis e comunidades negras.

Essa diversidade aparece na gastronomia, na música, nas danças, nas festas populares, nos costumes familiares e nas formas de ocupação do território. Em vez de representar apenas uma herança do passado, essas tradições são continuamente reinterpretadas por escolas, grupos culturais, associações comunitárias e eventos promovidos na cidade.

Um dos principais símbolos dessa convivência é a Festa das Etnias. A celebração começou em 1989 com o nome de Quermesse e foi criada para reunir manifestações culturais e gastronômicas ligadas às comunidades que participaram da formação de Criciúma. Nas primeiras edições, o evento ocorreu na Praça Nereu Ramos e, posteriormente, passou por outros espaços até ser realizado em estruturas maiores.

A programação costuma reunir culinária típica, apresentações artísticas, danças folclóricas e atividades voltadas à preservação das tradições. As sete etnias mais associadas à festa são italiana, alemã, polonesa, espanhola, portuguesa, negra e árabe. O evento também cumpre uma função de transmissão cultural, ao aproximar crianças e jovens das referências históricas de suas comunidades. (fcc.criciuma.sc.gov.br)

Espaços urbanos e novas formas de turismo

Criciúma passou a investir na criação e na valorização de parques, praças e equipamentos voltados ao lazer, à cultura e ao turismo. O Parque das Nações, o Parque dos Imigrantes, o Parque Centenário e outros espaços urbanos são utilizados para eventos, atividades esportivas e manifestações culturais.

Esses locais ajudam a ampliar a imagem da cidade para além da mineração e da indústria. O turismo associado à memória do carvão convive com roteiros culturais, religiosos, gastronômicos e de negócios. A estratégia também procura integrar Criciúma a circuitos turísticos do Sul catarinense, conectando a cidade a municípios próximos e a diferentes paisagens da região.

O patrimônio industrial tem papel importante nesse processo. Chaminés, locomóveis, pontes, antigas estruturas ferroviárias e áreas de mineração funcionam como referências concretas de uma etapa decisiva da urbanização local. A preservação desses bens permite que a população reconheça como a cidade foi construída e quais grupos participaram desse processo.

Uma cidade entre a memória e a inovação

A trajetória de Criciúma é marcada por mudanças econômicas profundas. O município nasceu como núcleo agrícola de imigrantes, cresceu com o carvão, incorporou a ferrovia e a energia industrial e, mais tarde, ampliou sua economia com a cerâmica, o comércio, os serviços e outros segmentos produtivos.

Essa transformação não eliminou as marcas do passado. Ao contrário, a memória dos mineiros, das famílias imigrantes, das antigas empresas e dos bairros formados ao redor das minas continua presente em monumentos, museus, festas e relatos comunitários.

O desafio contemporâneo é conciliar desenvolvimento econômico, preservação cultural e recuperação ambiental. Criciúma mantém uma indústria relevante e uma posição estratégica no Sul catarinense, mas também precisa lidar com os efeitos acumulados de sua história produtiva. Nesse equilíbrio entre herança e renovação está uma das principais características da cidade.

Com raízes na imigração, identidade forjada pelo carvão e economia diversificada, Criciúma ocupa um lugar singular na história de Santa Catarina. A cidade é, ao mesmo tempo, memória de uma sociedade mineradora, polo industrial e espaço de encontro entre diferentes tradições culturais.