sábado, 3 de outubro de 2026
Esportes

Surf feminino em Santa Catarina ganha espaço com mais competições, premiação e novas atletas

O surf feminino em Santa Catarina vive uma fase de expansão, impulsionada por novos campeonatos, premiações iguais às masculinas e maior presença de meninas nas categorias de base. Tainá Hinckel, Kiany Hyakutake e outras atletas representam uma geração que amplia o espaço das mulheres no esporte.

O surf feminino em Santa Catarina atravessa uma fase de expansão. O crescimento aparece no calendário de competições, no número de atletas envolvidas, na criação de oportunidades para as categorias de base e na adoção de premiações iguais às oferecidas aos homens em etapas profissionais.

O movimento ainda é marcado pela presença de surfistas que passaram a representar o estado em competições nacionais e internacionais. Entre elas está Tainá Hinckel, da Guarda do Embaú, que consolidou uma trajetória de destaque no circuito catarinense e chegou a representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

Em 2026, a Federação Catarinense de Surf ampliou a dimensão do circuito profissional. O calendário foi estruturado com três etapas e premiação de R$ 100 mil em cada uma delas, dividida igualmente entre as categorias masculina e feminina. A medida colocou a disputa estadual entre as principais vitrines do esporte no país. Segundo a Fecasurf, os valores destinados às mulheres são iguais aos pagos aos homens nas mesmas posições.

Mais espaço no circuito profissional

A igualdade na premiação representa uma mudança importante porque interfere diretamente na possibilidade de continuidade das atletas. O surfe profissional envolve despesas com viagens, equipamentos, preparação física, técnicos, hospedagem e participação em eventos. Quando as mulheres recebem os mesmos valores em uma competição, o incentivo financeiro deixa de ser um obstáculo adicional dentro do próprio campeonato.

O Circuito Catarinense de Surf Pro de 2026 começou na Praia do Mar Grosso, em Laguna, no litoral sul do estado. A primeira etapa foi vencida por Kiany Hyakutake, de Florianópolis, que superou Valentina Zanoni na final feminina e recebeu R$ 15 mil pelo título, o mesmo valor destinado ao campeão masculino. O resultado colocou a atleta na liderança inicial da disputa estadual. A Fecasurf divulgou os resultados da etapa.

A segunda etapa está prevista para a Praia de Palmas, em Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis. A competição foi programada para ocorrer entre 15 e 18 de outubro de 2026, com R$ 100 mil em premiação total, sendo R$ 50 mil para a chave feminina e R$ 50 mil para a masculina. A decisão do circuito está marcada para São Francisco do Sul, no norte do estado, entre 3 e 6 de dezembro.

A distribuição do calendário por diferentes regiões também amplia o alcance do campeonato. Laguna, Governador Celso Ramos e São Francisco do Sul apresentam características distintas de mar, estrutura e público. Para as atletas, competir em diferentes praias representa uma oportunidade de adaptação técnica e de exposição diante de novos espectadores, patrocinadores e profissionais do esporte.

Tainá Hinckel se torna referência

O crescimento do surf feminino catarinense também está ligado à consolidação de nomes que funcionam como referência para as novas gerações. Tainá Hinckel é o principal exemplo. A atleta conquistou quatro dos cinco títulos femininos disputados no circuito profissional catarinense desde a inclusão da categoria, em 2021.

Em 2025, Tainá confirmou o tetracampeonato estadual. A conquista foi assegurada na etapa de São Francisco do Sul, depois que a surfista abriu vantagem suficiente no ranking. Ela havia vencido também as edições de 2021, 2022 e 2023. Em 2024, o título ficou com Maria Autuori, outra atleta da Guarda do Embaú.

A presença de Tainá em eventos de maior projeção contribui para aproximar o público catarinense do alto rendimento. A participação olímpica, as disputas em circuitos nacionais e a regularidade no campeonato estadual ampliam a visibilidade do esporte e mostram que a formação local pode levar atletas a competições de alcance internacional.

O protagonismo, no entanto, não está concentrado em uma única surfista. O ranking estadual de 2025 também reuniu nomes como Luiza Rosa Teixeira, Kauanny de Souza, Valentina Zanoni, Maya Carpinelli, Ane Leite, Kaylane Antunes, Maria Autuori e Kiany Hyakutake. A presença de várias atletas catarinenses entre as primeiras colocadas indica a formação de um grupo competitivo mais amplo.

Base feminina ganha força

A ampliação do surf feminino depende também da entrada de meninas no esporte. Por isso, as categorias de base têm papel decisivo na formação de futuras atletas. O Circuito Surf Talentos Oceano, ligado ao calendário da Fecasurf, reúne competidores de até 18 anos e mantém categorias femininas sub-12, sub-14, sub-16 e sub-18.

A divisão por idade permite que as participantes tenham contato com o ambiente competitivo desde cedo. Além de aprender a lidar com baterias, notas e critérios de julgamento, as jovens passam a conviver com outras surfistas, treinadores, familiares e representantes de associações locais.

Em 2026, uma das etapas do circuito de base foi realizada na Praia do Santinho, em Florianópolis. Outra competição ocorreu na Prainha, em São Francisco do Sul, uma das praias mais tradicionais do estado para eventos de surfe. A organização informou que as disputas reuniram atletas de Santa Catarina e de outras regiões.

A existência de categorias femininas regulares ajuda a evitar que as meninas precisem competir apenas em baterias mistas ou abandonar o esporte por falta de continuidade. A competição exclusiva também cria referências, estimula a permanência e mostra às iniciantes que há caminhos possíveis entre a primeira aula e o alto rendimento.

Praias catarinenses como centros de formação

Santa Catarina possui uma faixa litorânea com diferentes tipos de ondas e uma longa tradição de campeonatos. Praias de Florianópolis, Garopaba, Imbituba, Laguna, São Francisco do Sul, Governador Celso Ramos e outras cidades recebem eventos ao longo do ano.

Essa variedade favorece o desenvolvimento técnico das surfistas. Em uma mesma temporada, elas podem enfrentar ondas mais rápidas, mar mais pesado, bancadas de areia e condições alteradas pelo vento. A experiência acumulada em diferentes picos contribui para a preparação necessária em competições nacionais.

Além da estrutura natural, as associações de surfe e entidades municipais têm participação importante na realização dos eventos. A organização local envolve montagem de áreas de competição, julgamento, transmissão, segurança, atendimento aos atletas e mobilização do público. Quando esses eventos retornam ao calendário, a modalidade passa a fazer parte da rotina esportiva das cidades.

O impacto se estende para além da competição. Campeonatos movimentam escolas de surfe, comércio, hospedagem, alimentação e serviços ligados ao turismo. No caso das mulheres, a presença em etapas profissionais e de base também amplia a visibilidade de instrutoras, treinadoras, fotógrafas, jornalistas e outras profissionais que atuam no setor.

O desafio da continuidade

Apesar do avanço, o crescimento do surf feminino não elimina os desafios. A continuidade das atletas depende de calendário regular, condições de treinamento, apoio financeiro e acesso a equipamentos adequados. Também é necessário garantir que as categorias femininas tenham número suficiente de baterias e espaço de divulgação equivalente ao das disputas masculinas.

Outro ponto é a transição entre a base e o profissional. Muitas meninas participam de campeonatos durante a infância e a adolescência, mas encontram dificuldades para seguir competindo quando aumentam os custos e as exigências de viagem. Bolsas, patrocínios, programas de incentivo e apoio das associações podem reduzir essa ruptura.

A igualdade de premiação adotada no circuito profissional catarinense é uma medida concreta, mas sua efetividade depende de um ecossistema mais amplo. Para formar uma carreira, a atleta precisa de oportunidades frequentes, cobertura dos eventos, reconhecimento dos resultados e condições para permanecer no esporte durante vários anos.

O próprio calendário mostra que ainda há espaço para ampliar a participação. Em 2026, a etapa de Laguna teve 11 baterias na categoria feminina, segundo a organização, enquanto a chave masculina contou com 35 baterias. A diferença está relacionada ao formato e ao número de inscritos, mas também reforça a importância de aumentar a quantidade de atletas e fortalecer a base.

Visibilidade muda a percepção sobre o esporte

A maior exposição do surf feminino contribui para mudar a percepção sobre quem pode ocupar as ondas e os pódios. Quando meninas acompanham uma competição e veem atletas catarinenses disputando títulos, a modalidade se torna mais próxima e possível.

Essa transformação ocorre tanto nos grandes campeonatos quanto nas atividades locais. Aulas coletivas, projetos sociais, eventos de associações e circuitos amadores ajudam a construir uma porta de entrada para quem ainda não tem experiência. A presença de mulheres como treinadoras e líderes comunitárias também pode facilitar o ingresso de novas praticantes.

Em Santa Catarina, a combinação entre tradição no surfe, quantidade de praias, circuitos organizados e atletas de destaque cria um ambiente favorável para o avanço da modalidade. O desafio agora é transformar o crescimento recente em uma política esportiva duradoura, capaz de manter as meninas no mar e ampliar o número de profissionais.

O cenário de 2026 indica que o surf feminino catarinense deixou de ocupar um espaço secundário no calendário. A igualdade nas premiações, a presença de categorias de base e a consolidação de atletas como Tainá Hinckel e Kiany Hyakutake apontam para uma fase de maior reconhecimento. A próxima etapa será garantir que esse espaço continue crescendo e alcance ainda mais praias, projetos e competidoras no estado.