O turismo de inverno em Santa Catarina deixou de depender apenas da ocorrência de neve ou das temperaturas negativas. Nas cidades serranas, o frio passou a ser tratado como um produto turístico capaz de movimentar hospedagens, restaurantes, vinícolas, comércio, serviços de transporte e atividades de aventura durante a estação mais fria do ano.
Urubici, São Joaquim, Bom Jardim da Serra, Urupema e Lages estão entre os principais destinos associados à temporada. A estratégia envolve campanhas de divulgação, melhoria de acessos, valorização da gastronomia regional e criação de experiências que possam atrair visitantes mesmo quando não há neve.
O movimento ocorre em um cenário de crescimento do consumo turístico. Segundo levantamento da Fecomércio SC divulgado pela Secretaria de Estado do Turismo, o gasto médio por grupo de visitantes na Serra Catarinense chegou a R$ 3.550 em 2025, ante R$ 2.824 no ano anterior, em valores reais. A pesquisa apontou o maior resultado da série histórica iniciada em 2017. (setur.sc.gov.br)
Frio como produto turístico
A Serra Catarinense reúne características que ajudam a diferenciar o destino no mercado nacional: altitudes elevadas, ocorrência de geadas, possibilidade de neve, paisagens de campos e cânions, produção de maçãs, vinhos de altitude e tradições ligadas à cultura tropeira.
O clima, porém, é apenas uma parte da experiência oferecida. A permanência do visitante depende de uma combinação de fatores, como qualidade da hospedagem, opções de alimentação, acesso aos atrativos, segurança e disponibilidade de atividades para diferentes perfis de público.
Por isso, os municípios vêm ampliando o discurso turístico para além da busca por temperaturas baixas. A proposta é apresentar a serra como destino de natureza, gastronomia, descanso, aventura, cultura e enoturismo, com atrações que possam ser consumidas em diferentes condições de tempo.
O Sebrae de Santa Catarina identifica na região uma forte presença de pequenos negócios ligados a pousadas, restaurantes, vinícolas, guias, trilhas e experiências rurais. De acordo com a entidade, mais de 97% das empresas turísticas da Serra Catarinense são pequenos negócios, o que faz do fluxo de visitantes uma fonte relevante de renda para empreendedores locais. (sebrae-sc.com.br)
Urubici concentra procura e amplia infraestrutura
Urubici aparece como um dos principais pontos de hospedagem e distribuição dos visitantes pela serra. A cidade é conhecida por atrativos como o Morro da Igreja, a Serra do Corvo Branco, cachoeiras, cânions e áreas de montanha. A localização também favorece a montagem de roteiros integrados com São Joaquim e Bom Jardim da Serra.
Na pesquisa sobre o inverno de 2025, Urubici foi citada por 53,6% dos visitantes como município de hospedagem. São Joaquim e Lages apareceram na sequência, com 17,6% cada. Entre os atrativos mais lembrados estavam o Morro da Igreja, a Serra do Corvo Branco e a Serra do Rio do Rastro. (setur.sc.gov.br)
A infraestrutura viária também entrou na agenda da temporada de 2026. O trecho da SC-110 conhecido como Serra do Panelão, entre a BR-282 e Urubici, recebeu obras de revitalização em 24 quilômetros, com investimento informado de R$ 5,7 milhões. Segundo a prefeitura, os trabalhos incluíram recuperação do pavimento, sinalização, drenagem, defensas metálicas e melhorias em uma área de escape. (urubici.sc.gov.br)
A melhoria das estradas é considerada estratégica para uma região em que muitos atrativos ficam afastados dos centros urbanos e são acessados por rodovias sinuosas. Durante os períodos de maior movimento, o aumento do fluxo de veículos exige atenção redobrada de motoristas e operadores turísticos.
São Joaquim combina frio, maçã e vinhos de altitude
São Joaquim mantém uma das marcas mais conhecidas do inverno catarinense. O município associa a imagem do frio à produção de maçãs, à paisagem rural e ao crescimento das vinícolas de altitude.
O enoturismo se consolidou como uma das alternativas para ampliar o tempo de permanência dos visitantes. Degustações, visitas a vinhedos e experiências gastronômicas ajudam a reduzir a dependência de fenômenos climáticos específicos, como a neve, e permitem que a viagem seja planejada com base em atividades disponíveis ao longo de toda a temporada.
O levantamento sobre o inverno de 2025 apontou que 11,9% dos entrevistados citaram vinícolas e vinhedos entre as experiências relevantes do roteiro. A gastronomia também aparece como componente importante, com destaque para produtos associados à identidade serrana, como pinhão, queijos, carnes, doces, maçãs e bebidas produzidas na região. (setur.sc.gov.br)
Para os municípios, a diversificação é importante porque distribui o gasto turístico entre diferentes setores. Em 2025, 36% das despesas dos visitantes foram destinadas à alimentação e 24% à hospedagem. Comércio, lazer e transporte também participaram da composição dos gastos. (setur.sc.gov.br)
Bom Jardim da Serra aposta em paisagens e acesso aos cânions
Bom Jardim da Serra ocupa posição estratégica no roteiro serrano por concentrar mirantes, cânions e a Serra do Rio do Rastro, uma das paisagens mais conhecidas de Santa Catarina. A cidade também utiliza a altitude e a ocorrência de geadas como elementos de divulgação durante o inverno.
O município mantém uma oferta turística baseada em hospedagens rurais, restaurantes, passeios guiados, cavalgadas e observação da paisagem. A proposta é fazer com que o visitante permaneça mais tempo na cidade, em vez de apenas atravessar a região para conhecer a rodovia ou seguir em direção a outros destinos.
Em junho de 2026, Bom Jardim da Serra foi escolhida para sediar o lançamento estadual da Estação Inverno. O programa busca promover Santa Catarina como destino de inverno e integrar os municípios serranos a outros roteiros turísticos do estado. (setur.sc.gov.br)
A localização também permite a conexão com São Joaquim, Urubici e áreas de fronteira com o Rio Grande do Sul. A formação de circuitos regionais é uma das alternativas para ampliar a oferta ao turista e evitar que a visita se concentre em um único atrativo.
Urupema e o apelo das temperaturas negativas
Urupema integra o grupo de cidades que exploram a imagem das baixas temperaturas, da geada e da paisagem rural. Em áreas mais elevadas da Serra Catarinense, as temperaturas negativas são registradas especialmente durante a passagem de massas de ar frio.
A Defesa Civil de Santa Catarina informou que São Joaquim, Bom Jardim da Serra e Urupema registraram temperaturas abaixo de zero no fim do outono de 2026. O órgão também destacou que o inverno é marcado por geadas, nevoeiros e variações rápidas nas condições do tempo. (defesacivil.sc.gov.br)
A ocorrência de neve, no entanto, não deve ser tratada como garantia de viagem. O fenômeno depende de uma combinação específica de temperatura, umidade e circulação atmosférica. Por isso, os destinos serranos procuram ampliar a comunicação sobre outras atrações, como trilhas, gastronomia, hospedagens com lareira, turismo rural e observação da paisagem.
Lages funciona como centro de serviços e distribuição
Lages exerce papel de apoio para o turismo da serra por concentrar serviços, comércio, hospedagem e acesso a diferentes municípios da região. A cidade também desenvolve atividades próprias relacionadas ao turismo rural, à cultura regional e à gastronomia.
Dados apresentados pela prefeitura com base em pesquisa da Fecomércio indicaram que a temporada de inverno de 2026 registrou crescimento real de 4% nos gastos dos turistas em comparação com o ano anterior. O estudo apontou gasto médio de R$ 3.852 por grupo e informou que 80% dos visitantes fizeram compras no comércio local. (lages.sc.gov.br)
O mesmo levantamento mostrou que 60,9% dos visitantes eram catarinenses. Entre os turistas de outros estados, Paraná e São Paulo apareceram como principais mercados emissores. O perfil indica que a serra recebe tanto viagens de curta distância quanto visitantes que percorrem trajetos mais longos para conhecer o destino. (lages.sc.gov.br)
Inverno mais estruturado, mas com desafios
A profissionalização do turismo de inverno amplia as oportunidades econômicas, mas também impõe desafios. O aumento do fluxo exige planejamento para trânsito, atendimento, sinalização, segurança, manejo de áreas naturais e qualificação dos serviços.
Outro ponto é a necessidade de reduzir a concentração do movimento em poucos fins de semana de julho. Para isso, os municípios buscam promover experiências em junho, agosto e nos períodos de baixa procura, além de fortalecer segmentos que funcionam durante outras estações, como o turismo de aventura, o cicloturismo, a observação de aves e as visitas a propriedades rurais.
As condições climáticas também exigem comunicação responsável. Em junho de 2026, a Epagri/Ciram projetou a ocorrência de períodos de frio, mas indicou possibilidade de temperaturas mais amenas e maior umidade em parte de julho e agosto, sob influência do fenômeno El Niño. A previsão reforçou a importância de oferecer uma programação que não dependa exclusivamente de neve ou de dias ensolarados. (ciram.epagri.sc.gov.br)
Na prática, a estratégia das cidades serranas é transformar o frio em porta de entrada para uma experiência mais ampla. A paisagem pode atrair o visitante, mas a permanência e o consumo dependem da combinação entre hospedagem, alimentação, cultura, natureza, acessibilidade e serviços.
Turismo regional busca reduzir a sazonalidade
O fortalecimento do inverno como estação turística oficial de Santa Catarina faz parte de uma política de promoção que pretende reduzir a dependência do estado em relação ao turismo de verão. A iniciativa também procura distribuir melhor o fluxo entre o litoral, o interior e a serra.
Para os municípios serranos, o desafio é consolidar uma identidade própria sem perder de vista a integração regional. Roteiros que combinam Urubici, São Joaquim, Bom Jardim da Serra, Urupema e Lages podem ampliar o tempo de viagem e beneficiar um número maior de empreendimentos.
Os resultados registrados em 2025 e 2026 indicam que há espaço para crescimento, especialmente entre visitantes interessados em experiências de maior valor agregado. A consolidação desse mercado, porém, dependerá da continuidade dos investimentos, da qualidade da infraestrutura e da capacidade de preservar os atrativos naturais que sustentam a imagem da Serra Catarinense.








