Áreas preservadas, trilhas, rios, montanhas, praias e comunidades rurais passaram a ocupar o centro de novos roteiros turísticos em Santa Catarina. A estratégia amplia a oferta de experiências ao ar livre e associa a visitação à valorização do patrimônio natural, da cultura regional e das atividades econômicas ligadas ao turismo.
Entre as iniciativas recentes estão a Trilha Caminhos da Baleia Franca, no litoral sul, e o Circuito Serra do Itajaí, no Vale Europeu Catarinense. As duas propostas têm características diferentes, mas seguem uma mesma tendência: transformar paisagens preservadas em produtos turísticos estruturados, sem separar a atividade econômica da necessidade de conservação ambiental.
O movimento também ocorre em um cenário de diversificação do turismo estadual. Além do turismo de praia, Santa Catarina passou a promover com mais intensidade modalidades como caminhadas de longa distância, observação de aves, cicloturismo, esportes de aventura e experiências de contato com comunidades e propriedades rurais.
Trilha Caminhos da Baleia Franca percorre o litoral sul
Com 172 quilômetros, a Trilha Caminhos da Baleia Franca conecta o Balneário Rincão ao Rio da Madre, na Guarda do Embaú. O percurso passa por Balneário Rincão, Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Garopaba e Paulo Lopes, reunindo praias, dunas, lagoas, morros, ilhas e costões rochosos.
Segundo o Ministério do Turismo, o trajeto foi planejado para ser percorrido em cinco dias e atravessa áreas protegidas importantes do Sul do Brasil. Entre elas estão a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca, o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o Parque Nacional de São Joaquim e o Parque Nacional de Aparados da Serra. (gov.br)
A rota está inserida nos biomas Mata Atlântica e Marinho Costeiro, com ambientes que abrigam diferentes espécies de fauna e flora, incluindo algumas ameaçadas de extinção. A baleia-franca, que dá nome ao caminho, é apresentada como um dos símbolos do roteiro e como espécie-guarda-chuva da APA da Baleia Franca.
O conceito de espécie-guarda-chuva está relacionado à proteção de um animal cujo habitat também abriga outras espécies. Nesse caso, medidas voltadas à conservação da baleia-franca contribuem para preservar áreas costeiras utilizadas por diferentes organismos e para manter o equilíbrio de ecossistemas marinhos e terrestres associados.
O percurso também inclui referências históricas, arqueológicas e culturais dos municípios envolvidos. A proposta não se limita à caminhada: os trechos podem ser associados a atividades como corrida, surfe, kitesurfe, paraquedismo e canoagem, de acordo com as características de cada local.
Roteiro aproxima turismo e comunidades locais
A criação de uma trilha regional amplia a possibilidade de distribuir o fluxo turístico entre diferentes municípios. Em vez de concentrar visitantes em poucos atrativos conhecidos, o roteiro cria conexões entre praias, unidades de conservação, caminhos históricos, empreendimentos locais e serviços de apoio.
Essa integração pode favorecer meios de hospedagem, restaurantes, condutores, transportadores, produtores rurais, artesãos e empresas de atividades ao ar livre. Também pode estimular a permanência dos turistas por mais tempo na região, especialmente quando o visitante combina trechos de caminhada com experiências culturais e gastronômicas.
O resultado, no entanto, depende da organização do uso público. Trilhas em áreas naturais exigem sinalização, manutenção, controle de impactos, orientação aos visitantes e respeito às regras específicas de cada unidade de conservação. A presença de uma rota oficial não significa que todos os trechos tenham a mesma infraestrutura ou que o acesso seja livre em qualquer época do ano.
Por isso, a visitação deve considerar condições climáticas, características do terreno, regras ambientais e disponibilidade de serviços. Em áreas protegidas, também é necessário seguir orientações dos órgãos responsáveis e evitar a retirada de plantas, a alimentação de animais, a abertura de atalhos e o descarte de resíduos.
Circuito Serra do Itajaí aposta no cicloturismo
No Vale Europeu Catarinense, o Circuito Serra do Itajaí foi estruturado como um novo produto de turismo de natureza e aventura. O trajeto contorna o Parque Nacional da Serra do Itajaí e tem aproximadamente 310 quilômetros, conectando municípios, comunidades rurais e atrativos naturais.
O circuito passa por Apiúna, Ascurra, Blumenau, Botuverá, Brusque, Gaspar, Guabiruba, Ibirama, Indaial e Vidal Ramos. Ao longo do caminho, os ciclistas encontram estradas rurais, áreas montanhosas, rios, vales, comunidades tradicionais e paisagens preservadas. O percurso soma cerca de 5.650 metros de elevação acumulada, característica que reforça o perfil de aventura da proposta. (cimvi.sc.gov.br)
O novo trajeto foi concebido como complemento ao Circuito Vale Europeu de Cicloturismo. A principal diferença está na flexibilidade de planejamento: o visitante pode escolher os trechos que pretende percorrer por dia e definir em quantos dias deseja concluir a viagem.
Essa autonomia permite adaptar o roteiro ao preparo físico, ao tipo de bicicleta, às condições climáticas e ao tempo disponível. Também abre espaço para diferentes perfis de público, desde ciclistas experientes interessados em desafios de montanha até visitantes que buscam deslocamentos mais curtos e contato com paisagens rurais.
De acordo com o Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí, responsável pela divulgação do projeto, o lançamento do Circuito Serra do Itajaí está previsto para 8 de novembro de 2026. Até essa data, informações operacionais, sinalização e orientações aos usuários podem ser atualizadas pelos responsáveis pelo roteiro. (cimvi.sc.gov.br)
Conservação como parte da experiência
O diferencial dos novos roteiros está na tentativa de transformar a conservação em parte da experiência turística. O visitante não é atraído apenas por uma paisagem bonita, mas por um percurso que apresenta características ambientais, histórias locais e formas de vida relacionadas ao território.
No Circuito Serra do Itajaí, a conexão com comunidades rurais pode gerar oportunidades para hospedagem, alimentação, agricultura familiar, comércio e serviços turísticos. A proposta divulgada pelo consórcio é estimular a circulação dos visitantes ao longo de todo o percurso e reforçar a importância da proteção dos recursos naturais. (cimvi.sc.gov.br)
Na Trilha Caminhos da Baleia Franca, a relação entre conservação e turismo aparece na integração entre unidades de conservação, habitat da baleia-franca e patrimônio histórico do litoral sul. A expectativa é que a rota ajude a preservar caminhos tradicionais e, ao mesmo tempo, incentive uma visitação responsável.
Esse modelo exige planejamento permanente. O aumento do número de visitantes pode pressionar trilhas, áreas de estacionamento, sistemas de coleta de resíduos, fontes de água e ambientes sensíveis. A expansão do turismo de natureza precisa ser acompanhada por monitoramento de impactos e por regras claras de uso.
Unidades de conservação ampliam possibilidades
Santa Catarina mantém uma rede de unidades de conservação que reúne parques estaduais, reservas biológicas e outras categorias de proteção. Entre as áreas administradas pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina estão os parques estaduais Acaraí, das Araucárias, Fritz Plaumann, Rio Canoas, do Rio Vermelho, da Serra Furada e da Serra do Tabuleiro, além de reservas biológicas estaduais. (ima.sc.gov.br)
Essas áreas têm objetivos diferentes, conforme a categoria de manejo e as regras estabelecidas para cada unidade. Algumas permitem visitação e atividades de educação ambiental sob determinadas condições; outras têm acesso mais restrito, principalmente quando a prioridade é proteger espécies, habitats ou processos ecológicos.
O uso turístico, portanto, não deve ser confundido com exploração irrestrita. A visitação precisa respeitar planos de manejo, limites de acesso, períodos de funcionamento e orientações dos gestores. Em roteiros de aventura, essa atenção é ainda mais importante, porque parte dos trajetos pode atravessar terrenos íngremes, rios, áreas sujeitas a mudanças climáticas e locais sem cobertura de telefonia.
Observação de aves mostra outra frente do turismo de natureza
Além de trilhas e bicicletas, a observação de aves é uma atividade que aproxima visitantes da biodiversidade sem exigir grandes estruturas físicas. O Instituto do Meio Ambiente já destacou o potencial das unidades de conservação estaduais para receber observadores e produzir registros úteis à ciência cidadã.
Em uma edição do Global Big Day, realizada em 2023, observadores catarinenses registraram 470 espécies em um único dia, número equivalente a quase 70% das aves catalogadas no estado, segundo o IMA. A atividade pode contribuir para estudos sobre distribuição geográfica, migração e ocorrência de espécies, além de incentivar a educação ambiental. (ima.sc.gov.br)
A observação de aves também amplia o calendário turístico e pode atrair visitantes fora da alta temporada de verão. Por depender principalmente de conhecimento, equipamentos simples e orientação adequada, a modalidade pode ser integrada a pousadas, propriedades rurais, parques e roteiros de caminhada.
Novas regras e integração regional
O fortalecimento dos roteiros também passa por medidas de organização do setor. Em 2025, Santa Catarina sancionou leis relacionadas ao turismo, incluindo uma norma que regulamenta a atividade de guia de turismo e prevê a presença de guias regionais cadastrados em excursões, city-tours, traslados e roteiros realizados no estado.
Segundo a Assembleia Legislativa, a medida busca valorizar profissionais locais, ampliar a segurança e oferecer informações qualificadas sobre os territórios visitados. A norma se soma a iniciativas de integração entre municípios, como a Rota de Turismo Integrado do Big Surf, que reúne Jaguaruna, Laguna, Imbituba e Garopaba. (alesc.sc.gov.br)
A articulação regional é especialmente relevante para o turismo de natureza porque os atrativos raramente se limitam às fronteiras administrativas de um município. Uma trilha pode começar em uma cidade, atravessar áreas rurais de outra e depender de serviços instalados em uma terceira. Sem coordenação, a experiência do visitante fica fragmentada e a capacidade de conservação tende a ser desigual.
O desafio de crescer sem descaracterizar
Os novos roteiros catarinenses mostram que a natureza preservada pode ser um ativo turístico sem perder sua função ambiental. Para isso, o crescimento da visitação precisa ser compatível com a capacidade de cada área e com os direitos das comunidades que vivem nos territórios.
Entre os cuidados necessários estão a definição de rotas oficiais, a manutenção da sinalização, a capacitação de condutores, o tratamento adequado de resíduos, o controle de ruídos, a proteção de nascentes e a prevenção de acidentes. Também é importante comunicar com clareza quais trechos estão abertos, quais exigem acompanhamento e quais não são recomendados para visitação.
Para o turista, a escolha por roteiros de natureza envolve mais do que levar equipamentos adequados. Significa respeitar o silêncio, não alimentar animais, permanecer nos caminhos sinalizados, carregar o próprio lixo e consumir, sempre que possível, produtos e serviços de empreendedores locais.
Com a expansão de trilhas costeiras e circuitos de cicloturismo, Santa Catarina amplia sua posição no segmento de turismo de natureza. O resultado mais consistente, porém, não será medido apenas pelo número de visitantes. A consolidação desses roteiros dependerá da capacidade de preservar os ambientes, distribuir renda e manter vivas as histórias e práticas culturais que dão sentido a cada percurso.








