sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Serviços

Cultura açoriana em Santa Catarina é preservada por comunidades do litoral

A cultura açoriana em Santa Catarina permanece presente em comunidades do litoral por meio de festas religiosas, práticas de trabalho, culinária, arquitetura, artesanato e tradições transmitidas entre gerações.

A cultura açoriana em Santa Catarina permanece viva em diferentes comunidades do litoral do estado. A presença pode ser percebida em festas religiosas, manifestações populares, formas de trabalho, receitas, construções antigas, artesanato e modos de falar que foram transmitidos ao longo de gerações.

Essa herança começou a se consolidar em meados do século 18, quando famílias vindas do arquipélago dos Açores e da Madeira foram incentivadas a ocupar áreas do litoral catarinense. Entre 1748 e 1756, milhares de açorianos chegaram à região e participaram da formação de povoados que mais tarde dariam origem a comunidades de Florianópolis e de outras cidades costeiras.

O resultado não foi a reprodução exata da vida nas ilhas portuguesas. Em Santa Catarina, os imigrantes precisaram adaptar seus conhecimentos ao clima, ao relevo, aos recursos naturais e às relações estabelecidas com populações que já viviam no território. A cultura formada a partir desse processo é, portanto, resultado de permanências, mudanças e intercâmbios.

Uma presença concentrada no litoral

A colonização açoriana contribuiu para o povoamento de áreas próximas a baías, enseadas, lagoas e rios. A localização favoreceu atividades como a pesca, a agricultura de subsistência, a produção de farinha de mandioca e o cultivo de pequenas lavouras.

Com o tempo, núcleos como Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, Sambaqui e Lagoa da Conceição, em Florianópolis, passaram a ser reconhecidos pela permanência de referências luso-açorianas. A influência também se espalhou por municípios do litoral central e sul, como São José, Palhoça, Biguaçu, Governador Celso Ramos, Tijucas, Porto Belo, Bombinhas, Garopaba, Imbituba, Laguna e outras localidades.

O Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina registra que o litoral catarinense desenvolveu uma cultura de base açoriana marcada por características próprias. O mapeamento considera elementos materiais e imateriais, incluindo festas, edificações, objetos, práticas econômicas, narrativas e formas de sociabilidade.

Festas religiosas mantêm vínculos comunitários

Entre as manifestações mais conhecidas estão as celebrações ligadas ao Divino Espírito Santo. As festas reúnem cortejos, bandeiras, coroas, cantorias, promessas, missas, distribuição de alimentos e encontros comunitários. Em muitas localidades, a organização envolve famílias, grupos religiosos, associações e moradores que participam da preparação durante vários meses.

A tradição não se limita ao calendário religioso. As festas funcionam como espaços de convivência e transmissão de conhecimentos. Crianças e jovens aprendem com os mais velhos a preparar os enfeites, conduzir os cortejos, executar músicas e respeitar os rituais próprios de cada comunidade.

Também fazem parte do repertório cultural as celebrações de Natal, os ternos de reis e o chamado pão por Deus, tradição associada à produção e à troca de pequenos cartões decorados com versos. As formas de realização variam de uma comunidade para outra, mas todas contribuem para preservar memórias coletivas e vínculos de pertencimento.

Boi de mamão e outras manifestações populares

O boi de mamão é uma das expressões mais conhecidas da cultura popular catarinense. A brincadeira combina música, dança, personagens, fantasias e encenação de uma narrativa acompanhada por instrumentos e cantigas. Embora tenha recebido influências diversas ao longo do tempo, a manifestação é frequentemente associada à formação cultural luso-açoriana do litoral.

Os grupos de boi de mamão costumam atuar em festas comunitárias, escolas, eventos culturais e apresentações públicas. A permanência da tradição depende da participação de brincantes, músicos, artesãos e responsáveis pela confecção dos personagens e dos adereços.

Outras manifestações, como cantorias, histórias de bruxas, lendas sobre o mar e narrativas de pescadores, também integram a memória oral das comunidades. Essas histórias foram transmitidas em ambientes domésticos, nas conversas entre vizinhos, nos engenhos e nas áreas de pesca.

Renda de bilro preserva técnicas e relações de trabalho

A renda de bilro é outro símbolo associado à presença açoriana no litoral de Santa Catarina. A técnica utiliza pequenas peças de madeira, chamadas bilros, movimentadas sobre uma almofada para formar desenhos e tramas. O trabalho exige coordenação, paciência e domínio de padrões aprendidos com outras rendeiras.

Durante décadas, a produção esteve ligada principalmente ao trabalho feminino e à economia doméstica. As peças eram usadas em roupas, toalhas, enxovais e objetos decorativos. Em algumas comunidades, a atividade também se transformou em fonte de renda por meio da venda direta, de feiras e de iniciativas de turismo cultural.

Apesar da associação frequente com o patrimônio açoriano, a renda de bilro não é uma prática isolada de outras influências. A técnica passou por mudanças e foi incorporada de diferentes maneiras pelas comunidades catarinenses. A preservação depende de oficinas, projetos educativos, valorização das mestras e continuidade do aprendizado entre as novas gerações.

Engenhos de farinha revelam saberes coletivos

A produção artesanal de farinha de mandioca foi fundamental para a alimentação e a economia de muitas comunidades do litoral. Nos engenhos, o trabalho envolvia o plantio, a colheita, a raspagem, a trituração, a prensagem e a torra da mandioca. Cada etapa exigia conhecimentos específicos e, muitas vezes, a participação de várias famílias.

Os engenhos também eram espaços de encontro. A chamada farinhada reunia moradores em períodos de trabalho intenso e fortalecia relações de ajuda mútua. Além da farinha, eram produzidos derivados como o beiju, o polvilho e a cachaça, conforme os costumes de cada localidade.

Os saberes e as práticas tradicionais relacionados aos engenhos de farinha de mandioca em Santa Catarina foram objeto de estudos e de ações de preservação cultural. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional mantém registros e inventários sobre referências culturais luso-açorianas no estado e sobre práticas tradicionais das comunidades litorâneas.

Arquitetura, pesca e paisagem cultural

A herança açoriana também aparece na arquitetura de antigas localidades. Casas térreas, fachadas coloridas, janelas, portas, igrejas, sobrados e equipamentos comunitários compõem conjuntos que ajudam a contar a história da ocupação do litoral.

No Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, por exemplo, a presença luso-açoriana é identificada em edificações tradicionais, na Igreja Nossa Senhora da Lapa e em referências ligadas à pesca e à formação histórica da comunidade. O bairro também abriga o Museu Etnológico do Ribeirão da Ilha, dedicado à preservação de objetos e memórias locais.

A pesca artesanal é outro elemento central. Em comunidades próximas ao mar, às baías e às lagoas, técnicas de captura, fabricação e manutenção de embarcações, preparo de redes e beneficiamento do pescado foram transmitidas dentro das famílias. A atividade mudou com o avanço urbano e turístico, mas continua ligada à identidade de diversos grupos.

A paisagem cultural resulta da combinação entre território e práticas sociais. Ranchos de pesca, caminhos antigos, casas, igrejas, roças, engenhos e áreas de convivência formam um conjunto que não pode ser compreendido apenas pela preservação de um prédio ou de um objeto isolado.

Transformações desafiam a continuidade das tradições

A cultura açoriana não permaneceu imune às transformações do litoral catarinense. A urbanização, a expansão imobiliária, o turismo, a mudança nas atividades econômicas e a substituição de áreas de pesca e agricultura alteraram a rotina de muitas comunidades.

Em algumas localidades, os moradores enfrentam dificuldades para manter casas antigas, engenhos, ranchos e espaços de convivência. A transmissão de práticas também é afetada quando os jovens deixam as comunidades ou quando atividades tradicionais deixam de garantir renda.

Outro desafio é evitar que a cultura seja reduzida a uma imagem folclórica ou apenas turística. Preservar uma tradição envolve reconhecer seus praticantes, garantir condições para sua continuidade e compreender os conflitos e as mudanças que fazem parte da vida comunitária.

O Iphan considera inventários e registros instrumentos importantes para identificar referências culturais e orientar ações de proteção. Em Santa Catarina, já foram realizados levantamentos relacionados à base luso-açoriana do litoral, além de estudos sobre outras comunidades e práticas tradicionais.

Preservação depende da participação local

A continuidade da cultura açoriana depende principalmente das comunidades que mantêm essas práticas no cotidiano. Universidades, escolas, museus, grupos folclóricos, associações culturais e órgãos públicos podem contribuir com pesquisa, documentação, educação patrimonial e apoio a projetos locais.

As escolas têm papel relevante ao aproximar os estudantes da história de suas próprias comunidades. Oficinas de renda, visitas a engenhos, registro de relatos de moradores, apresentações de grupos tradicionais e estudo de festas locais são algumas das formas de transformar a memória em conhecimento.

Também é importante reconhecer que a identidade do litoral catarinense é plural. A matriz açoriana se relaciona com contribuições indígenas, africanas, europeias e de outros grupos que participaram da formação social do estado. Falar em cultura açoriana, portanto, não significa ignorar outras presenças, mas compreender uma das bases históricas que ajudaram a formar Santa Catarina.

Nas comunidades do litoral, a preservação ocorre tanto em grandes celebrações quanto em gestos cotidianos: uma receita preparada em família, uma renda ensinada a uma criança, uma cantiga repetida em uma festa, uma embarcação reparada por um pescador ou uma casa antiga mantida pelos moradores.

É nessa combinação entre memória e prática que a cultura açoriana em Santa Catarina continua a se renovar. Mais do que um conjunto de símbolos do passado, ela permanece como parte da vida social, econômica e afetiva de comunidades que seguem construindo sua identidade junto ao mar.