sexta-feira, 2 de outubro de 2026
MANCHETES

Cidades de Santa Catarina transformam tradições em atrações turísticas

Cidades de Santa Catarina transformam tradições herdadas de diferentes povos em festas, roteiros, experiências gastronômicas e atrações culturais. A estratégia ajuda a preservar a identidade regional e a distribuir o turismo para além do litoral.

O turismo em Santa Catarina vai muito além das praias. Em diferentes regiões do estado, cidades transformam tradições herdadas de imigrantes, comunidades litorâneas, grupos religiosos e populações rurais em festas, roteiros culturais, experiências gastronômicas e atrações permanentes.

A estratégia combina preservação da memória e desenvolvimento econômico. Ao valorizar costumes locais, os municípios criam motivos para a visita em diferentes épocas do ano, reduzem a dependência do verão e distribuem o movimento turístico entre o litoral, os vales, a serra, o oeste e o sul catarinense.

O resultado é uma oferta variada, formada por eventos conhecidos nacionalmente e por experiências menores, muitas vezes ligadas à produção artesanal, à culinária, à arquitetura, à religiosidade e ao modo de vida das comunidades.

Blumenau faz da herança alemã uma marca turística

Blumenau é um dos exemplos mais conhecidos de como a identidade cultural pode orientar a atividade turística. A cidade, no Vale do Itajaí, incorporou elementos da imigração alemã à arquitetura, à gastronomia, à música e ao calendário de eventos.

A Oktoberfest é o principal símbolo desse processo. A festa reúne apresentações musicais, danças, trajes típicos e pratos associados à tradição germânica. Mais do que um evento isolado, ela ajudou a consolidar Blumenau como referência do turismo cultural e de festas típicas no Brasil.

A cidade também utiliza outros elementos da herança regional para compor a experiência do visitante, como construções inspiradas na arquitetura enxaimel, cervejarias, restaurantes e espaços voltados à história da imigração. Segundo a Secretaria de Estado do Turismo de Santa Catarina, a influência alemã é uma das características que distinguem o Vale Europeu e seus roteiros.

Pomerode preserva costumes e cria experiências culturais

Vizinha de Blumenau, Pomerode transformou a preservação de costumes alemães em um dos principais eixos de sua economia turística. O município é conhecido pela arquitetura, pelas festas tradicionais, pela culinária e pelo uso de referências culturais em espaços públicos e empreendimentos privados.

Um dos destaques do calendário é a Osterfest, festa de Páscoa que reúne símbolos da tradição cristã trazida por imigrantes alemães. A programação inclui decoração temática, atividades culturais e elementos artesanais produzidos para receber os visitantes. A iniciativa mostra como uma celebração religiosa e comunitária pode ganhar dimensão turística sem perder sua ligação com a memória local.

O município também mantém iniciativas relacionadas ao artesanato, à gastronomia e à formação cultural. O Centro Cultural de Pomerode é apontado pelo governo estadual como um espaço de referência para conhecer costumes e manifestações do município. A cidade ainda integra roteiros que combinam turismo cultural, cicloturismo, gastronomia e contato com áreas rurais.

Joinville amplia o turismo cultural com dança e patrimônio

Em Joinville, a dança ocupa posição central na estratégia de atração de visitantes. A cidade abriga o Festival de Dança de Joinville, evento que reúne grupos, escolas, profissionais e público de diferentes partes do país e do exterior.

O festival movimenta hotéis, restaurantes, comércio e serviços, mas sua importância turística não se limita aos dias de apresentações. A programação contribui para associar a cidade à formação artística, à produção cultural e à circulação de espetáculos.

Joinville também trabalha com outros elementos de sua identidade histórica, como a influência germânica, os museus, os espaços culturais e a preservação de edificações. A combinação entre evento de grande porte e patrimônio permanente permite que o visitante encontre diferentes formas de conhecer a cidade, mesmo fora do período do festival.

Nova Veneza usa a cultura italiana para valorizar a gastronomia

No sul de Santa Catarina, Nova Veneza transformou a herança italiana em uma experiência que reúne gastronomia, arquitetura, religiosidade e festas populares. A cidade é conhecida pelas construções, pelos restaurantes especializados em receitas de origem italiana e pela valorização dos costumes preservados pelas famílias descendentes de imigrantes.

A Festa da Gastronomia Italiana é um dos principais eventos do município. O encontro valoriza pratos tradicionais, apresentações culturais e produtos associados à colonização italiana. A culinária funciona como porta de entrada para outros aspectos da história local, como o dialeto, as celebrações religiosas, as relações comunitárias e as técnicas de produção de alimentos.

O modelo adotado por Nova Veneza mostra como a gastronomia pode deixar de ser apenas um serviço complementar e se tornar o motivo principal da viagem. A comida, nesse caso, conecta o turista ao território e estimula a permanência em restaurantes, lojas, espaços culturais e propriedades rurais.

Treze Tílias preserva referências do Tirol austríaco

Treze Tílias, no Meio-Oeste catarinense, apresenta uma identidade ligada à imigração austríaca, especialmente à região do Tirol. A influência aparece na arquitetura, nas esculturas, na música, nas danças, na gastronomia e nas festas tradicionais.

O município é conhecido pelo conjunto de casas e edifícios com características inspiradas na cultura tirolesa. O patrimônio arquitetônico, aliado à produção de esculturas e ao artesanato, forma um roteiro que diferencia a cidade de outros destinos de colonização europeia no estado.

Em vez de concentrar a visita em um único evento, Treze Tílias transforma a própria paisagem urbana em atração turística. O visitante pode circular pela cidade, conhecer espaços culturais, experimentar pratos típicos e observar manifestações artísticas relacionadas à história das famílias que chegaram à região.

Nova Trento fortalece o turismo religioso

As tradições religiosas também têm papel relevante no turismo catarinense. Nova Trento é um dos principais exemplos, especialmente por abrigar o Santuário Santa Paulina, destino de peregrinação e visitação no Vale do Rio Tijucas.

O turismo religioso movimenta o município durante diferentes períodos do ano e cria demanda para hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços. A visita ao santuário costuma ser associada a roteiros que incluem igrejas, capelas, áreas rurais e outros pontos de interesse histórico e natural.

Em 2026, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina informou a criação da Rota Turística Religiosa Caminhos do Santuário, com conexão entre municípios de diferentes regiões e chegada ao Santuário Santa Paulina. A iniciativa reforça uma tendência de organizar manifestações de fé e patrimônio em percursos integrados, ampliando o tempo de permanência dos visitantes.

Florianópolis e Laguna preservam a cultura açoriana

No litoral, a tradição açoriana aparece de forma marcante em cidades como Florianópolis e Laguna. A herança está presente na arquitetura, nas festas religiosas, na pesca artesanal, nos engenhos, na culinária e no modo de ocupação de comunidades próximas ao mar.

Em Florianópolis, localidades como Santo Antônio de Lisboa e Ribeirão da Ilha reúnem casarios, restaurantes, igrejas, paisagens costeiras e referências à vida de pescadores e agricultores. A experiência turística combina patrimônio cultural e natureza, com atividades ligadas à gastronomia, à observação da paisagem e à história das comunidades.

Laguna acrescenta a esse conjunto um patrimônio histórico relacionado à formação do sul do país e à trajetória de Anita Garibaldi. O centro histórico, as manifestações culturais e as atividades associadas à pesca e ao complexo lagunar ajudam a diversificar a imagem do destino, normalmente associado apenas às praias.

Estudos sobre o turismo catarinense destacam que a cultura açoriana, a pesca artesanal e a agricultura familiar formam parte de um patrimônio vivo, mantido pelas comunidades e incorporado a experiências de turismo de base local.

Rodeio valoriza o dialeto e as tradições italianas

No Vale Europeu, Rodeio utiliza a herança trentina para estruturar atividades culturais e turísticas. O dialeto trentino, a culinária italiana, os grupos de dança e as festas religiosas fazem parte da identidade do município.

De acordo com o Portal Municipal de Turismo de Rodeio, a história da imigração pode ser percebida em manifestações mantidas no cotidiano, além de roteiros de caminhada, cicloturismo e visitas a áreas rurais.

Esse tipo de iniciativa aproxima o visitante da vida local e amplia a compreensão sobre o patrimônio imaterial. Em vez de apresentar a cultura apenas como espetáculo, o município busca relacioná-la a pessoas, famílias, produção agrícola, paisagens e práticas que continuam presentes na comunidade.

Tradições rurais e novas rotas ampliam o mapa turístico

A valorização cultural também alcança municípios menos conhecidos pelos turistas. Em 2026, novas iniciativas estaduais passaram a reconhecer manifestações comunitárias, festas religiosas, atividades ligadas à produção rural e rotas gastronômicas como elementos de interesse turístico.

Entre as propostas divulgadas está a Rota das Oliveiras, voltada a municípios como Guaraciaba, Campo Erê, Vargem Bonita, Iomerê, Ibiam, Campos Novos e Rancho Queimado. A iniciativa associa produção de azeites, gastronomia, história rural e experiências no campo.

O movimento indica uma mudança na forma de planejar o turismo. A atração não precisa estar concentrada em um grande evento ou em uma cidade já conhecida. Pequenos produtores, festas comunitárias, propriedades rurais, igrejas, museus locais e manifestações tradicionais também podem integrar roteiros, desde que haja organização, preservação e estrutura para receber visitantes.

Preservação é condição para o turismo cultural

Transformar tradições em atrações turísticas exige equilíbrio. A atividade pode gerar renda, fortalecer negócios locais e estimular a manutenção de prédios, festas e práticas culturais. Mas também precisa evitar a descaracterização das manifestações e a redução da identidade comunitária a cenários para consumo rápido.

Por isso, a participação dos moradores é essencial. São as comunidades que guardam receitas, histórias, celebrações, técnicas artesanais, músicas, sotaques e formas de trabalho. Quando esses grupos participam do planejamento, o turismo tende a respeitar melhor os significados originais de cada tradição.

Em Santa Catarina, a diversidade cultural permite construir roteiros muito diferentes entre si. Há cidades marcadas pela imigração alemã, italiana ou austríaca; municípios com forte presença açoriana; destinos ligados à fé; e regiões que preservam costumes rurais e práticas comunitárias.

Essa variedade ajuda a explicar por que o estado consegue oferecer turismo durante todo o ano. As praias continuam entre os principais atrativos, mas festas, sabores, arquitetura, música, religiosidade e memória ampliam as possibilidades de viagem. Ao transformar tradições em atrações, as cidades catarinenses também reforçam a própria identidade e criam novas formas de apresentar sua história.