A Festa do Pinhão se consolidou como uma das principais celebrações culturais de Santa Catarina. Realizado em Lages, na Serra Catarinense, o evento combina gastronomia, música, turismo e manifestações populares em torno de um alimento que ocupa lugar central na paisagem e na memória da região: o pinhão.
Mais do que uma programação de shows, a festa funciona como uma vitrine da identidade serrana. Durante o período do evento, receitas tradicionais, música nativista, danças, artesanato, concursos e encontros comunitários ajudam a apresentar ao público elementos do modo de vida construído nas áreas de campos e florestas de araucária do planalto catarinense.
A programação também movimenta diferentes setores da economia e aproxima moradores, visitantes, artistas, produtores rurais, entidades filantrópicas e empreendedores. Em 2026, a Festa Nacional do Pinhão chegou à 36ª edição, realizada entre 22 de maio e 7 de junho, segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Lages.
O pinhão como símbolo da Serra Catarinense
O pinhão é a semente da araucária, árvore característica de áreas do Sul do Brasil e um dos principais símbolos naturais da Serra Catarinense. A presença dessas árvores na paisagem regional ajudou a formar hábitos alimentares, práticas de coleta e formas de convivência que atravessaram gerações.
Na Serra, o pinhão costuma ser associado aos meses mais frios do ano. O alimento aparece cozido, assado ou incorporado a receitas salgadas e doces. Também é utilizado em preparos como farofas, sopas, paçocas e o entrevero, prato que combina carnes, vegetais e pinhão em uma preparação típica da cozinha serrana.
Essa relação entre produto, território e memória explica por que o pinhão ultrapassou a condição de ingrediente. Ele passou a representar uma parte da experiência cultural da região, presente em reuniões familiares, festas comunitárias, feiras e celebrações de inverno.
A Festa do Pinhão amplia essa tradição e a transforma em um evento de alcance nacional. Ao reunir diferentes formas de preparo e apresentar produtores e cozinheiros, a festa ajuda a divulgar a gastronomia regional sem dissociá-la do ambiente, da história e dos costumes que deram origem a essas práticas.
Uma festa ligada à identidade de Lages
Lages ocupa posição de destaque na formação histórica e cultural da Serra Catarinense. A cidade está inserida em uma região marcada por atividades agropecuárias, circulação de tropeiros, criação de gado, produção rural e relações comerciais que contribuíram para a construção de uma identidade própria.
Essa identidade aparece na linguagem, na música, nas vestimentas, na culinária e na maneira como a população se relaciona com o campo e com as áreas de serra. A Festa do Pinhão incorpora parte desses elementos ao organizar uma programação que combina referências tradicionais e atrações contemporâneas.
O evento também tem uma dimensão comunitária. Em diferentes edições, espaços espalhados pela cidade recebem apresentações artísticas e atividades culturais, permitindo que a celebração não fique restrita ao parque de exposições. O Recanto do Pinhão, no centro de Lages, é um dos locais associados à programação cultural e à participação de artistas e grupos da região.
Essa descentralização amplia o contato entre visitantes e moradores e transforma a cidade em parte da experiência da festa. Restaurantes, hotéis, comércio, serviços de transporte e estabelecimentos voltados ao turismo também passam a integrar o movimento provocado pelo evento.
Música nativista e manifestações culturais
A música é um dos principais eixos da Festa do Pinhão. Embora a programação inclua artistas de grande alcance nacional e diferentes gêneros musicais, a presença da música nativista dá ao evento uma conexão direta com as tradições da Serra e do Sul do Brasil.
As canções nativistas costumam abordar a paisagem, o trabalho rural, os animais, as relações familiares, a vida no campo e os costumes regionais. Dessa forma, funcionam como registros de experiências coletivas e ajudam a preservar temas que fazem parte da memória cultural serrana.
Entre os eventos tradicionais associados à Festa Nacional do Pinhão estão a Sapecada da Canção Nativa e a Sapecada da Serra Catarinense. Os festivais valorizam compositores, intérpretes e grupos que produzem música ligada à cultura regional. A realização das sapecadas também contribui para a circulação de novas obras e para a continuidade de uma linguagem artística identificada com a região.
Além dos festivais, a programação cultural pode incluir grupos folclóricos, declamadores, trovadores e apresentações de dança. Essas manifestações ajudam a mostrar que a cultura serrana não se resume à música ou à gastronomia, mas reúne diferentes formas de expressão transmitidas entre gerações.
Gastronomia como experiência cultural
Durante a Festa do Pinhão, a culinária ganha espaço tanto nas barracas e restaurantes quanto nas atividades voltadas à divulgação dos sabores locais. O pinhão é o ingrediente mais conhecido, mas a gastronomia da Serra Catarinense inclui uma variedade de produtos ligados à produção rural e à cozinha doméstica.
Carnes, queijos, embutidos, pães, doces, bebidas quentes e preparos caseiros fazem parte do repertório alimentar da região. Em muitos casos, são receitas associadas a famílias, comunidades e formas tradicionais de aproveitamento dos ingredientes disponíveis no território.
O preparo do pinhão também evidencia a relação entre simplicidade e diversidade. Cozido ou assado, ele pode ser consumido sozinho. Quando incorporado a outros pratos, acrescenta textura e sabor e permite adaptações que vão da comida cotidiana à gastronomia de eventos.
Esse aspecto contribui para que a festa cumpra uma função de valorização do patrimônio alimentar. Ao apresentar receitas serranas para um público amplo, o evento estimula o reconhecimento de ingredientes locais e fortalece a conexão entre gastronomia, agricultura e turismo.
Turismo e economia regional
A Festa do Pinhão atrai visitantes de diferentes partes de Santa Catarina e de outros estados. A procura costuma beneficiar a rede hoteleira, os restaurantes, o comércio e os serviços turísticos de Lages e de municípios próximos.
O impacto não se limita ao período dos shows. Muitos visitantes aproveitam a viagem para conhecer paisagens, parques, vinícolas, propriedades rurais, centros históricos e outros atrativos da Serra Catarinense. Com isso, o evento pode funcionar como porta de entrada para uma experiência turística mais ampla.
A movimentação também cria oportunidades para pequenos empreendedores, artesãos, produtores rurais e entidades que participam da comercialização de alimentos e produtos regionais. Em edições recentes, a organização incluiu espaços destinados a entidades filantrópicas e empreendedores locais, reforçando o caráter econômico e comunitário da festa.
O crescimento do evento, no entanto, exige planejamento. Transporte, segurança, hospedagem, limpeza, atendimento ao público e organização dos espaços são aspectos fundamentais para que a grande circulação de pessoas não comprometa a experiência dos visitantes nem a rotina dos moradores.
Tradição e renovação na programação
Uma das características da Festa do Pinhão é a combinação entre tradição e renovação. De um lado, estão os elementos que remetem à história regional: a culinária, a música nativista, a cultura campeira, as danças e os produtos associados à vida serrana. De outro, aparecem shows de artistas populares, novas linguagens culturais e formatos de entretenimento voltados a públicos diversos.
Essa mistura amplia o alcance do evento e permite que diferentes gerações participem da celebração. Para os moradores, a festa representa uma oportunidade de reafirmar referências locais. Para quem chega de fora, oferece contato com uma cultura que tem características próprias dentro da diversidade catarinense.
A renovação também ocorre na forma de comunicar e organizar o evento. As edições recentes passaram a explorar diferentes espaços urbanos, atividades gratuitas e ações voltadas à divulgação digital. A organização da festa mantém, ao mesmo tempo, concursos de realeza e festivais que integram a tradição do calendário cultural de Lages.
Preservação cultural e desafios
A valorização da cultura serrana depende da capacidade de manter vivas as práticas que dão sentido à festa. Isso envolve apoiar artistas locais, preservar repertórios musicais, reconhecer o trabalho de produtores rurais e garantir espaço para manifestações que não têm a mesma visibilidade dos grandes shows.
Também é necessário tratar o pinhão com atenção ambiental. A araucária é uma espécie importante para a paisagem e para os ecossistemas da região, e a coleta do pinhão deve respeitar as regras ambientais aplicáveis. A produção e o consumo do alimento precisam estar associados à conservação das florestas e à valorização dos responsáveis pelo manejo e pela comercialização.
Outro desafio é evitar que a festa se transforme apenas em um evento de entretenimento. Sua relevância cultural está justamente na capacidade de reunir diversão e memória, atividade econômica e pertencimento, divulgação turística e preservação das tradições.
Um retrato da cultura serrana
A Festa do Pinhão ocupa um lugar simbólico na agenda cultural de Santa Catarina porque reúne, em um mesmo evento, diferentes dimensões da Serra Catarinense. O pinhão aparece como ingrediente, produto rural e elemento de identidade. A música registra histórias e costumes. A gastronomia aproxima visitantes e moradores. A programação cultural apresenta práticas que continuam sendo transmitidas entre gerações.
Ao longo de suas edições, a festa passou a representar não apenas Lages, mas uma região inteira. Seu significado está na capacidade de transformar referências locais em uma celebração reconhecida nacionalmente, sem perder a ligação com os costumes que deram origem ao evento.
Por isso, falar da Festa do Pinhão é falar também da paisagem de araucárias, da cozinha serrana, da música nativista, do trabalho rural e da memória coletiva. A celebração mostra que a cultura regional permanece viva quando encontra espaços para ser praticada, compartilhada e apresentada a novos públicos.
