sábado, 3 de outubro de 2026
MANCHETES

Festas de origem europeia continuam a marcar a identidade de Santa Catarina

Festas de origem alemã, italiana, austríaca e açoriana seguem presentes no calendário cultural de Santa Catarina. Além de reunir música, gastronomia e danças típicas, os eventos ajudam a preservar memórias da imigração e movimentam comunidades e cidades turísticas.

As festas de origem europeia em Santa Catarina continuam presentes no cotidiano de diversas cidades, especialmente no Vale do Itajaí, no Norte, no Meio-Oeste, no Sul e no litoral do estado. Em meio a desfiles, bandas, danças, trajes típicos e pratos tradicionais, esses eventos preservam memórias da imigração e ajudam a explicar a formação cultural de diferentes regiões catarinenses.

Mais do que reproduzir costumes trazidos pelos imigrantes, as celebrações foram adaptadas ao ambiente brasileiro. A música, a culinária e os símbolos europeus convivem com sotaques, hábitos e formas de organização construídos em Santa Catarina ao longo de gerações. Por isso, as festas não são apenas manifestações de origem estrangeira, mas expressões culturais produzidas no estado.

O calendário inclui eventos associados principalmente às heranças alemã, italiana, austríaca e açoriana. Entre os mais conhecidos estão a Oktoberfest Blumenau, a Fenarreco, em Brusque, a Tirolerfest, em Treze Tílias, e a Festa da Gastronomia Típica Italiana, em Nova Veneza.

Imigração ajudou a formar diferentes regiões do estado

A presença europeia em Santa Catarina ocorreu em períodos e áreas diferentes. Os açorianos chegaram principalmente a partir do século 18 e se estabeleceram ao longo do litoral. Os alemães passaram a ocupar áreas do Vale do Itajaí e do Norte no século 19. No fim daquele século, os italianos se concentraram em municípios do Sul catarinense.

Esse processo deixou marcas na arquitetura, na religião, na agricultura, na produção de alimentos, na organização comunitária e nas festas populares. A formação cultural do estado, no entanto, é mais ampla e também envolve populações indígenas, africanas, caboclas e outros grupos migrantes. As celebrações de origem europeia representam uma parte importante desse conjunto, mas não esgotam a diversidade de Santa Catarina.

Em muitas comunidades, as festas surgiram ligadas a encontros religiosos, celebrações da colheita, sociedades recreativas, clubes de caça e tiro, grupos de canto ou associações de imigrantes. Com o tempo, algumas foram incorporadas ao calendário turístico dos municípios e passaram a receber visitantes de outras regiões do Brasil.

Oktoberfest Blumenau se tornou símbolo estadual

A Oktoberfest Blumenau é a manifestação mais conhecida desse circuito. A primeira edição ocorreu em 1984, depois de duas grandes enchentes que atingiram o município em 1983 e 1984. Inspirada na festa realizada em Munique, na Alemanha, a celebração foi organizada pela prefeitura com apoio da comunidade local.

Na primeira edição, realizada em um único pavilhão, a festa recebeu 102 mil pessoas, segundo registros do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva. O evento durou dez dias e reuniu cerca de 103 mil litros de chope e 12 toneladas de alimentos. Ao longo das décadas, a Oktoberfest cresceu, passou a ocupar o Parque Vila Germânica e tornou-se uma das principais referências da cultura germânica no país. (blumenau.sc.gov.br)

Desfiles na Rua XV de Novembro, grupos folclóricos, bandas típicas, trajes tradicionais, gastronomia e cerveja são alguns dos elementos associados à festa. A programação também evidencia uma característica comum às celebrações catarinenses: a combinação entre a valorização da herança europeia e uma forma brasileira de festejar.

Em 2024, a Oktoberfest completou 40 edições. No ano seguinte, a festa foi reconhecida por lei como Patrimônio Cultural de Santa Catarina. A medida reforçou o papel do evento como referência da memória e da identidade de Blumenau, além de destacar a importância da cultura cervejeira e das tradições germânicas para o município. (alesc.sc.gov.br)

Fenarreco levou a tradição alemã para Brusque

Em Brusque, a Festa Nacional do Marreco, conhecida como Fenarreco, também ocupa lugar central no calendário cultural. O evento surgiu em 1985 com a proposta de complementar a Oktoberfest e valorizar a imigração alemã na cidade e na região.

O marreco, prato que dá nome à festa, aparece ao lado de outras receitas associadas à culinária germânica, além de chope, música, danças, desfiles e competições recreativas. A celebração transformou uma tradição gastronômica local em produto turístico, sem deixar de funcionar como espaço de encontro para moradores.

A Secretaria de Estado do Turismo identifica a Fenarreco como um dos eventos que impulsionam o movimento turístico de outubro em Santa Catarina. A festa também mostra como os municípios criaram versões próprias das celebrações germânicas, com símbolos e pratos ligados à história de cada comunidade. (setur.sc.gov.br)

Treze Tílias preserva a herança austríaca

Treze Tílias apresenta uma formação cultural marcada principalmente pela presença de imigrantes austríacos. A Tirolerfest é considerada o evento mais tradicional do município e teve sua primeira edição em outubro de 1934, poucos meses depois da fundação da cidade, ocorrida em 1933.

A festa celebra a cultura dos fundadores que chegaram de áreas como Tirol, Vorarlberg, Alta Áustria e Tirol do Sul. A influência austríaca convive com elementos alemães, italianos e brasileiros, que também integram a história da formação local.

Entre os objetivos da Tirolerfest estão a preservação de costumes, a divulgação da gastronomia e da música típicas e a participação de grupos culturais. O evento demonstra que a identidade europeia de Santa Catarina não é uniforme: ela varia conforme a origem dos imigrantes, o período de chegada e a maneira como cada comunidade reinterpretou suas tradições. (trezetilias.sc.gov.br)

Nova Veneza celebra a cultura italiana

No Sul catarinense, Nova Veneza se tornou uma das principais referências da imigração italiana no estado. A cidade foi colonizada por imigrantes italianos a partir de 1891 e realiza, desde 2004, a Festa da Gastronomia Típica Italiana.

O evento reúne pratos como polenta, massas artesanais, fortaia, minestra, embutidos, sobremesas e vinhos produzidos na região. A programação também inclui apresentações folclóricas, música, desfiles e o Carnevale di Venezia, inspirado no tradicional carnaval italiano.

A gastronomia ocupa papel central porque transforma hábitos familiares em patrimônio compartilhado. Receitas que antes circulavam principalmente entre parentes e vizinhos passam a ser apresentadas ao público, ensinadas às novas gerações e associadas à imagem do município.

Em 2026, a festa chegou à 20ª edição e também marcou os 135 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos ao Sul de Santa Catarina. A celebração evidencia como a memória da colonização permanece presente em eventos públicos, na culinária e na organização comunitária. (turismo.novaveneza.sc.gov.br)

Religião, colheita e convivência comunitária

Nem todas as festas de origem europeia foram criadas inicialmente como grandes eventos turísticos. Em várias comunidades, a origem está relacionada a celebrações religiosas, agradecimentos pela colheita e encontros de famílias.

Em Rodeio, no Vale do Itajaí, a festa La Sagra é associada à tradição italiana. O termo remete aos festejos realizados em homenagem ao santo padroeiro da comunidade e também como agradecimento pela colheita e pela comida disponível à mesa. A celebração preserva essa ligação entre fé, trabalho rural e convivência comunitária.

Esse tipo de origem ajuda a compreender por que a comida ocupa posição tão importante nas festas catarinenses. O preparo coletivo de massas, polenta, pães, carnes, doces e bebidas não representa apenas uma atração para visitantes. Em muitos casos, também é uma forma de manter práticas familiares e fortalecer vínculos entre moradores. (arquivo.rodeio.sc.gov.br)

Tradição também é adaptação

As festas de origem europeia não permaneceram idênticas às celebrações realizadas pelos imigrantes. Elas foram transformadas pelas condições locais, pela mistura entre famílias, pela urbanização e pela influência da cultura brasileira.

A Oktoberfest de Blumenau, por exemplo, nasceu inspirada em Munique, mas desenvolveu uma identidade própria. A Fenarreco incorporou o marreco como símbolo de Brusque. Nova Veneza relacionou a cultura italiana à gastronomia regional e ao carnaval de máscaras. Treze Tílias preservou referências austríacas ao mesmo tempo que incorporou elementos de outras origens presentes no município.

Essa adaptação é parte do processo de continuidade cultural. Uma tradição permanece viva quando consegue ser transmitida e, ao mesmo tempo, ganhar novos significados. As festas atuais reúnem descendentes de imigrantes, moradores sem ascendência europeia, turistas, comerciantes, artistas e grupos culturais.

Turismo e economia reforçam a permanência das festas

Além da dimensão simbólica, os eventos têm impacto sobre o turismo e a economia local. Restaurantes, hotéis, produtores rurais, cervejarias, artesãos, músicos, grupos de dança e prestadores de serviço participam direta ou indiretamente das programações.

As festas também ajudam a divulgar cidades que, fora do período dos eventos, buscam explorar outros atrativos históricos, culturais e naturais. A arquitetura, os museus, as antigas áreas de colonização, as rotas gastronômicas e as propriedades rurais passam a ser apresentados como parte de uma experiência mais ampla.

Esse processo, porém, exige equilíbrio. A transformação de uma tradição em produto turístico pode ampliar sua visibilidade, mas também criar o risco de reduzir a cultura a cenários, fantasias ou pratos típicos. A preservação depende da participação das comunidades, do registro histórico e do reconhecimento de que os costumes são resultado de experiências reais, marcadas por trabalho, migração, dificuldades e adaptação.

Memória que atravessa gerações

Ao reunir crianças, jovens, adultos e idosos, as festas funcionam como espaços de transmissão cultural. Grupos de dança ensinam coreografias, bandas preservam repertórios, cozinheiras mantêm receitas e associações organizam desfiles e apresentações.

Em Santa Catarina, a continuidade dessas celebrações mostra que a imigração europeia permanece presente não apenas em monumentos ou documentos históricos, mas também em práticas coletivas. A memória aparece quando uma família prepara uma receita, quando uma criança participa de um grupo folclórico ou quando uma comunidade volta a ocupar as ruas para celebrar sua história.

Por isso, as festas de origem europeia continuam marcando a identidade catarinense. Elas preservam referências trazidas de outros países, mas também revelam o resultado de mais de um século de convivência, mistura e reinvenção no território de Santa Catarina.