sexta-feira, 2 de outubro de 2026
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Gastronomia italiana em Santa Catarina preserva raízes da imigração e ganha identidade própria

A gastronomia italiana em Santa Catarina nasceu da imigração, incorporou ingredientes locais e se tornou parte da identidade cultural de cidades como Nova Veneza, Urussanga e Brusque.

A gastronomia italiana em Santa Catarina é resultado de uma história de migração, adaptação e preservação cultural. Mais do que reproduzir receitas trazidas da Europa, as comunidades formadas por imigrantes do norte da Itália criaram uma cozinha própria, marcada pelo uso de milho, trigo, uva, carnes, hortaliças e produtos coloniais.

Esse processo começou a ganhar força no século 19, quando grupos de italianos chegaram ao estado para participar de projetos de colonização. A alimentação passou a organizar a vida familiar, o trabalho agrícola e as celebrações religiosas. Ao longo das décadas, receitas preparadas nas casas foram incorporadas ao comércio, às festas comunitárias e ao turismo.

Hoje, pratos como polenta, massas, fortaia, minestra, salame colonial, queijos e vinhos aparecem associados à identidade de diferentes regiões catarinenses. Em Nova Veneza, no Sul do estado, essa herança recebeu reconhecimento nacional com a Lei Federal nº 13.678, de 13 de junho de 2018, que concedeu ao município o título de Capital Nacional da Gastronomia Típica Italiana. (planalto.gov.br)

A chegada dos italianos a Santa Catarina

A presença italiana em Santa Catarina tem marcos anteriores ao grande fluxo migratório do fim do século 19. Pesquisadores reconhecem a formação da colônia Nova Itália, atual São João Batista, no Vale do Rio Tijucas, em 1836. O núcleo foi formado por imigrantes da Sardenha, região que ainda fazia parte de um reino independente antes da unificação italiana, concluída em 1861. (alesc.sc.gov.br)

O principal ciclo de chegada, porém, é associado a 4 de junho de 1875, quando 108 colonos se estabeleceram na Colônia Itajahy-Príncipe Dom Pedro, posteriormente denominada Brusque. A partir daquele período, novos grupos se dirigiram para o Vale do Itajaí, o Sul catarinense e outras áreas destinadas à colonização.

No Sul, a Colônia Azambuja foi fundada em 1877 e se tornou uma referência para a expansão de núcleos italianos em áreas que mais tarde dariam origem ou contribuiriam para o desenvolvimento de municípios como Urussanga, Criciúma, Cocal do Sul e Treze de Maio. (turismo.pedrasgrandes.sc.gov.br)

A imigração foi formada principalmente por pessoas vindas de regiões do norte da Itália, como Vêneto, Lombardia e Trentino. Esses grupos não constituíam uma comunidade culturalmente uniforme. Falavam diferentes dialetos, tinham hábitos variados e trouxeram técnicas agrícolas e receitas associadas às suas regiões de origem.

Da receita familiar à cozinha catarinense

Nas colônias, a alimentação precisava atender a uma rotina de trabalho intenso e a períodos de escassez. Por isso, os pratos eram preparados com ingredientes disponíveis na propriedade ou obtidos nas proximidades. A cozinha italiana praticada em Santa Catarina foi, desde o início, uma cozinha de aproveitamento, planejamento e conservação.

O milho ocupou lugar central nesse processo. Transformado em farinha, servia de base para a polenta, alimento de preparo relativamente simples e capaz de acompanhar molhos, carnes, ovos, queijos e vegetais. A receita atravessou gerações e se tornou um dos símbolos mais conhecidos da presença italiana no estado.

A polenta, entretanto, não representa apenas uma tradição importada. Em Santa Catarina, ela assumiu diferentes consistências e acompanhamentos, de acordo com os hábitos de cada família e com os produtos disponíveis. Pode aparecer cremosa, firme, grelhada ou frita, servida com molho de tomate, frango, carne suína, queijo ou preparos coloniais.

A mesma lógica vale para as massas. O macarrão, o nhoque, o tortéi, o ravióli e o agnolini passaram a ser produzidos em casa, muitas vezes em ocasiões especiais. A abertura da massa, o preparo do recheio e a montagem dos pratos eram tarefas coletivas, geralmente associadas à transmissão de conhecimentos entre mães, avós e filhos.

Ingredientes que ajudaram a formar essa identidade

A agricultura praticada pelos imigrantes contribuiu para ampliar a variedade de ingredientes presentes na mesa catarinense. Além do milho e do trigo, ganharam espaço a uva, o arroz, o fumo, hortaliças, ervas, carnes e derivados do leite. A produção de vinho também surgiu como extensão de hábitos trazidos da Europa e, em algumas regiões, evoluiu para atividades comerciais.

O vinho colonial, os sucos de uva e os licores passaram a acompanhar refeições e festas comunitárias. Em localidades do Vale do Itajaí e do Sul do estado, a vitivinicultura permaneceu associada à memória familiar e ao trabalho de pequenas propriedades.

Produtos como salame, queijo, pão caseiro e conservas também fazem parte desse repertório. A conservação de carnes e vegetais era importante em uma época de acesso limitado ao comércio e ao transporte. Técnicas transmitidas entre gerações ajudaram a manter sabores que ainda são associados à culinária colonial italiana.

Os pratos também incorporaram ingredientes e costumes de outras comunidades. A história de Santa Catarina foi marcada pela presença de povos indígenas, portugueses, africanos, alemães, poloneses e descendentes de diferentes grupos europeus. Por isso, a cozinha italiana catarinense não deve ser entendida como uma reprodução isolada da culinária italiana, mas como uma expressão ítalo-brasileira formada em contato com o território.

Nova Veneza e a projeção da gastronomia italiana

Nova Veneza é uma das principais referências da gastronomia italiana em Santa Catarina. Fundado em 1891, o município construiu sua identidade pública a partir da valorização das tradições dos imigrantes, da arquitetura, dos eventos culturais e da culinária.

A cidade recebeu em 2003 o reconhecimento como Capital Catarinense da Gastronomia Italiana, posteriormente atualizado para Capital Catarinense da Gastronomia Típica Italiana. Em 2018, o título passou a ter abrangência nacional por meio de lei federal. (leis.alesc.sc.gov.br)

Entre os pratos associados à mesa local estão a polenta, as massas, o salame, a fortaia e a minestra. A fortaia, geralmente preparada com ovos e queijo, integra o conjunto de receitas simples que se tornaram representativas da cozinha das famílias de origem italiana. Já a minestra aparece como preparação ligada ao aproveitamento de ingredientes e à tradição das refeições comunitárias.

A Festa da Gastronomia Típica Italiana, realizada no município, combina comida, música, desfiles, manifestações culturais e atividades ligadas à memória da imigração. O evento ajudou a transformar receitas familiares em atração turística e contribuiu para consolidar a gastronomia como parte da economia local. (alesc.sc.gov.br)

O Sul catarinense e a tradição das festas comunitárias

No Sul de Santa Catarina, municípios formados a partir de colônias italianas preservam uma cozinha associada às festas religiosas, aos encontros familiares e às celebrações da colheita. Urussanga, Pedras Grandes, Nova Veneza, Treze de Maio e áreas próximas mantêm referências culturais ligadas à produção rural, ao vinho e às receitas coloniais.

A comida costuma ocupar papel central nesses eventos. O preparo de grandes quantidades de polenta, massas, carnes e doces exige organização coletiva e reproduz uma forma de convivência que se desenvolveu nas antigas comunidades. A cozinha, nesse contexto, não é apenas espaço de preparo: também funciona como lugar de transmissão de memória.

Iniciativas de instituições públicas e entidades locais têm buscado registrar receitas e valorizar produtos tradicionais. A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, por exemplo, promove ações relacionadas à culinária tradicional e à agricultura familiar, incluindo preparações vinculadas à colonização italiana. (blog.epagri.sc.gov.br)

Vale do Itajaí reúne sabores e influências diversas

No Vale do Itajaí, a presença italiana convive com uma forte herança alemã e com outras influências culturais. Essa combinação aparece tanto nos hábitos alimentares quanto nas festas, nos mercados, nas pequenas propriedades e nos restaurantes que oferecem pratos coloniais.

Em municípios como Rodeio, a produção de uvas e vinhos se relaciona à memória dos imigrantes e à criação de roteiros de turismo rural. A gastronomia é apresentada junto com paisagens agrícolas, experiências de degustação, arquitetura, música e tradições religiosas.

O resultado é uma culinária regional que preserva referências italianas sem deixar de refletir as características de Santa Catarina. Ingredientes locais, técnicas de conservação e modos de servir foram incorporados ao repertório trazido pelos imigrantes, criando combinações que não correspondem necessariamente a uma receita específica da Itália atual.

Uma tradição que continua em transformação

A gastronomia italiana em Santa Catarina permanece ligada à casa, mas também ocupa restaurantes, festas, feiras, agroindústrias e roteiros turísticos. A produção artesanal ganhou novos mercados, enquanto pratos antes restritos ao ambiente familiar passaram a ser apresentados como patrimônio cultural e produto de experiência.

Essa transformação não significa abandono das tradições. Em muitos casos, as receitas foram adaptadas para atender a novas formas de consumo, sem perder elementos essenciais, como o preparo manual, o uso de ingredientes locais e a reunião de várias pessoas em torno da mesa.

Também há um movimento de recuperação de receitas menos conhecidas. Preparos como sopas, pães, doces, massas recheadas, embutidos e acompanhamentos à base de verduras ajudam a ampliar a compreensão sobre a cozinha dos imigrantes. A tradição não se resume à polenta ou ao macarrão, embora esses pratos tenham papel simbólico importante.

O reconhecimento de Nova Veneza e a realização de festas gastronômicas em diferentes municípios mostram como a culinária passou a ocupar espaço na promoção cultural e turística do estado. Ao mesmo tempo, a permanência das receitas nas famílias indica que essa herança não depende apenas de eventos oficiais.

Em Santa Catarina, a gastronomia italiana é resultado de uma história construída entre a memória da imigração e a adaptação ao Brasil. Seus pratos carregam referências do norte da Itália, mas também revelam o trabalho nas colônias, a produção agrícola, a convivência entre comunidades e a criatividade diante dos ingredientes disponíveis.

Por isso, conhecer essa culinária é também compreender parte da formação social catarinense. Em cada prato preparado nas festas, nos restaurantes ou nas cozinhas familiares, permanecem marcas de deslocamento, sobrevivência, trabalho e pertencimento.