A influência italiana em Santa Catarina está presente em diferentes dimensões da vida cultural do estado. Ela pode ser identificada na gastronomia, na produção agrícola, nas festas comunitárias, na religiosidade, nos sobrenomes, na arquitetura, na música e em variedades linguísticas preservadas por famílias descendentes de imigrantes.
A imigração italiana ganhou força em Santa Catarina a partir da segunda metade do século XIX, dentro do movimento migratório que levou milhares de europeus ao Sul do Brasil. O marco mais citado para a chegada em massa ao estado é 4 de junho de 1875, quando imigrantes foram encaminhados para a antiga Colônia Itajahy-Príncipe Dom Pedro, na região do Vale do Itajaí. No Sul catarinense, a ocupação italiana também se expandiu a partir de núcleos como Azambuja, fundado na década de 1870. (alesc.sc.gov.br)
Por que os italianos vieram para Santa Catarina
A migração ocorreu em um contexto de mudanças econômicas e sociais na Europa. No Norte da Itália, especialmente em áreas do Vêneto, do Trentino e da Lombardia, muitas famílias enfrentavam pobreza, dificuldades de acesso à terra e instabilidade no período posterior à unificação italiana. No Brasil, o governo imperial estimulava a imigração e a ocupação de áreas consideradas estratégicas.
Em Santa Catarina, os imigrantes foram direcionados para colônias localizadas em regiões de mata, vales e áreas ainda pouco integradas aos centros urbanos. A adaptação foi marcada por dificuldades: abertura de estradas, derrubada da mata, construção de moradias, cultivo da terra e organização de serviços básicos. A formação das comunidades ocorreu de maneira gradual, com forte participação das famílias e das instituições religiosas.
Os grupos que chegaram ao estado não formavam uma comunidade homogênea. Havia diferenças de origem regional, idioma, costumes e experiências sociais. O que hoje é reconhecido como cultura ítalo-catarinense resultou da combinação dessas tradições com hábitos locais e com as influências de outros grupos que também participaram da formação de Santa Catarina.
As principais regiões de presença italiana
A colonização italiana se espalhou por diferentes áreas do território catarinense. No Sul, municípios como Urussanga, Nova Veneza, Orleans, Criciúma, Treze de Maio e Pedras Grandes preservam referências importantes da imigração. No Vale do Itajaí, comunidades de Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e outras localidades mantêm associações, grupos folclóricos e manifestações ligadas à memória dos antepassados.
A presença italiana também alcançou a Grande Florianópolis e o Oeste catarinense. No Oeste, parte das famílias de origem italiana chegou por movimentos migratórios internos, em especial a partir de outras áreas do Sul do Brasil. Estudos sobre a região mostram que festas, celebrações e discursos de identidade ajudaram a reconstruir e atualizar a chamada italianidade, transformando a herança familiar em elemento de reconhecimento coletivo. (ojs.sites.ufsc.br)
Essa distribuição regional explica por que não existe uma única experiência italiana em Santa Catarina. Os costumes preservados no Sul podem apresentar diferenças em relação aos do Vale do Itajaí ou do Oeste. As formas de falar, os pratos, as festas e as relações com a religião foram influenciadas pela origem dos grupos, pelo ambiente e pela interação com outras comunidades.
Gastronomia e produção rural
A gastronomia é uma das expressões mais visíveis da influência italiana em Santa Catarina. Massas, polenta, broas, pães, queijos, embutidos, sopas e preparações à base de milho foram incorporados ao cotidiano de muitas famílias. Em vários casos, as receitas foram adaptadas aos ingredientes disponíveis no novo território e às práticas alimentares já existentes no Brasil.
A polenta, por exemplo, tornou-se um dos símbolos culinários mais associados às comunidades italianas do estado. Preparada originalmente como alimento de base, ela passou a acompanhar carnes, molhos, queijos e outros produtos regionais. A minestra, os galetos, as massas artesanais e os pratos feitos em fogões a lenha também permanecem associados a festas familiares e eventos comunitários.
A produção de uva e vinho ocupa lugar especial nesse legado. Em regiões do Sul catarinense, o cultivo da videira foi desenvolvido por famílias de imigrantes e seus descendentes, contribuindo para a criação de uma identidade econômica e turística ligada à vitivinicultura. A fabricação artesanal de vinhos, sucos e derivados preserva técnicas transmitidas entre gerações, embora tenha passado por mudanças de escala, tecnologia e regulamentação.
A agricultura também deixou marcas na organização das propriedades e na economia regional. O trabalho familiar, a diversificação das plantações e a transformação de produtos da colheita em alimentos para consumo e venda foram práticas importantes para a sobrevivência das primeiras colônias. Com o tempo, algumas dessas atividades deram origem a pequenas empresas e empreendimentos familiares.
Religiosidade e organização comunitária
A fé católica teve papel central na formação de muitas comunidades italianas catarinenses. Capelas, igrejas, festas de padroeiro e procissões funcionaram como espaços de culto, mas também como locais de encontro, decisão e transmissão de costumes. Em áreas rurais, a construção de uma capela frequentemente representava uma das primeiras iniciativas coletivas de uma comunidade organizada.
As festas religiosas reuniam famílias, moradores de localidades vizinhas e visitantes. Além das celebrações litúrgicas, era comum haver música, comida, leilões, jogos e atividades de convivência. Esse formato contribuiu para que as festas se tornassem instrumentos de preservação da memória e, posteriormente, importantes eventos culturais e turísticos.
A religiosidade, contudo, não deve ser entendida como uma característica exclusiva dos italianos ou como elemento isolado da sociedade catarinense. Ela se desenvolveu em contato com tradições açorianas, alemãs, polonesas, ucranianas e de outros grupos presentes no estado. A identidade cultural de Santa Catarina é resultado dessa convivência entre diferentes matrizes.
Dialetos, música e memória familiar
Em muitas comunidades de origem italiana, os imigrantes não falavam o italiano padrão, mas variedades regionais e dialetos trazidos de suas localidades de origem. Ao longo do tempo, essas formas de comunicação entraram em contato com o português e deram origem a modos de falar reconhecidos como parte da memória cultural de determinadas regiões.
O uso desses dialetos diminuiu entre as gerações mais jovens, principalmente em razão da escolarização em português, da urbanização e da mobilidade das famílias. Ainda assim, palavras, expressões e formas de pronúncia permanecem presentes em conversas familiares, apresentações culturais e projetos de ensino da língua italiana.
A música também ajudou a manter vínculos com a origem dos imigrantes. Canções tradicionais, corais, bandas e grupos folclóricos passaram a ocupar espaço em festas comunitárias e eventos comemorativos. Em 2018, a legislação estadual oficializou a música “La Merica” como tema da colonização italiana em Santa Catarina, transformando uma referência da memória migratória em símbolo reconhecido pelo estado. (leis.alesc.sc.gov.br)
As narrativas de família completam esse processo. Fotografias, cartas, documentos, objetos de trabalho e relatos sobre a travessia do Atlântico são utilizados por descendentes, museus e pesquisadores para reconstruir a trajetória das comunidades. A memória, nesse caso, não é apenas recordação individual: ela também participa da definição de identidades locais.
Arquitetura e patrimônio cultural
A imigração italiana contribuiu para a construção de uma paisagem própria em várias áreas de Santa Catarina. Casas, capelas, moinhos, atafonas, cantinas, galpões e equipamentos ligados ao processamento de alimentos revelam formas de ocupação e de uso do território. Esses bens ajudam a compreender como as famílias viviam, trabalhavam e se relacionavam com o ambiente.
O patrimônio da imigração não se limita a prédios antigos. Ele inclui técnicas construtivas, objetos, caminhos, festas, receitas, músicas e práticas de trabalho. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconhece que a cultura catarinense foi formada pela contribuição de diferentes grupos migratórios e mantém estudos sobre os bens associados às colônias de imigração no estado. (bibliotecadigital.iphan.gov.br)
A preservação enfrenta desafios. Muitas construções foram alteradas, abandonadas ou substituídas por edificações mais recentes. A perda de documentos e a redução do número de falantes dos dialetos também dificultam a transmissão do patrimônio imaterial. Por isso, inventários, museus, arquivos e projetos de educação patrimonial são importantes para registrar e dar visibilidade a esse legado.
Festas italianas e turismo cultural
A partir do final do século XX, diversas cidades catarinenses passaram a organizar festas e eventos voltados à valorização da herança italiana. Essas iniciativas reúnem gastronomia, música, dança, artesanato, exposições, desfiles e apresentações de grupos folclóricos. Além de fortalecerem a convivência comunitária, elas ajudam a movimentar o comércio e o turismo local.
Nova Veneza é um dos exemplos mais conhecidos. A cidade mantém referências ligadas à imigração, à culinária, às festas e à arquitetura, além de utilizar essa herança como parte de sua imagem turística. Outras cidades do Sul e do Vale do Itajaí também promovem eventos que recuperam tradições familiares e transformam a memória da colonização em atração cultural.
Esse processo exige cuidado para que a cultura não seja reduzida a uma representação folclórica ou comercial. A valorização da imigração precisa considerar as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores, a diversidade interna entre os grupos italianos e a participação de outras populações na formação das cidades. Estudos sobre festas de identidade italiana mostram que a chamada italianidade é continuamente reconstruída no presente, e não simplesmente preservada de forma intacta desde o século XIX. (ojs.sites.ufsc.br)
Uma influência integrada à diversidade catarinense
A presença italiana é uma das bases da formação cultural de Santa Catarina, mas não explica sozinha a identidade do estado. Antes e depois da chegada dos imigrantes, o território já era marcado pela presença indígena, pela população afro-brasileira, pelas comunidades de origem açoriana e por outros grupos europeus e latino-americanos.
O legado italiano se consolidou justamente por meio das trocas realizadas ao longo do tempo. Receitas foram adaptadas, festas incorporaram novos elementos, famílias se deslocaram entre regiões e os descendentes passaram a combinar referências italianas com práticas brasileiras. A cultura resultante é dinâmica e não corresponde integralmente àquela trazida pelos imigrantes.
Mais de 150 anos depois do início da grande imigração italiana em Santa Catarina, a herança permanece visível em diferentes áreas da vida social. Ela está nas cozinhas, nas igrejas, nas cantinas, nos museus, nas festas, nas propriedades rurais e nas histórias contadas entre gerações. Compreender essa influência é também reconhecer que a cultura catarinense foi formada por encontros, adaptações e disputas de memória ao longo do tempo.
