sexta-feira, 2 de outubro de 2026
CIDADES

Itajaí: porto, pesca e tradições que mantêm viva a relação com o mar

Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, cresceu entre o rio Itajaí-Açu e o Atlântico. A cidade consolidou sua economia com o porto e a pesca, enquanto festas, culinária e manifestações culturais preservam a memória das comunidades ligadas ao mar.

Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, tem sua história ligada à água. A cidade se desenvolveu na foz do rio Itajaí-Açu, em uma área estratégica para a navegação, o comércio e a pesca. Ao longo do tempo, essa relação com o mar deixou de ser apenas uma característica geográfica e passou a definir a economia, a paisagem urbana e parte importante da identidade cultural do município.

O porto transformou a escala das atividades comerciais, aproximando o Vale do Itajaí de outras regiões do Brasil e do exterior. A pesca, por sua vez, consolidou uma cadeia produtiva formada por embarcações, estaleiros, fábricas de gelo, indústrias de processamento e trabalhadores especializados. Em paralelo, costumes herdados de comunidades portuguesas e açorianas permaneceram presentes na culinária, nas festas, na música e nas manifestações populares.

Essa combinação faz de Itajaí uma cidade em que navios, barcos de pesca, mercados, restaurantes e eventos culturais fazem parte de uma mesma narrativa: a história de uma população que cresceu entre o rio e o oceano.

O rio que abriu caminho para o desenvolvimento

A localização às margens do Itajaí-Açu foi decisiva para a formação do município. Antes da consolidação da estrutura portuária moderna, o rio já funcionava como via de circulação de pessoas e mercadorias. A navegação permitia a conexão entre o litoral e áreas produtivas do interior do Vale do Itajaí, favorecendo o comércio e a ocupação da região.

Registros históricos citados pelo Município de Itajaí apontam a presença de navegadores e moradores na região da Barra do Rio desde o período colonial. A ocupação posterior recebeu influência de portugueses, incluindo famílias ligadas à pesca, e de imigrantes alemães que chegaram ao Vale do Itajaí no século XIX. A convivência entre essas origens contribuiu para a formação social e cultural da cidade.

Ao longo do século XIX, a movimentação comercial cresceu nas margens do rio. Madeira, produtos agrícolas e outras mercadorias passaram a circular com maior intensidade. Essa atividade ajudou a consolidar Itajaí como ponto de ligação entre o litoral e o interior catarinense. O processo também estimulou o surgimento de armazéns, casas comerciais, oficinas e serviços relacionados à navegação.

A relação entre cidade e rio permaneceu visível na organização urbana. Edificações, vias e áreas de convivência foram se estabelecendo próximas às margens. Com o passar das décadas, o espaço ribeirinho ganhou novas funções, mas continuou associado à memória do trabalho portuário, da pesca e da circulação de embarcações.

A formação do Porto de Itajaí

A estrutura portuária de Itajaí foi construída gradualmente. Segundo a história oficial do Porto de Itajaí, os primeiros estudos técnicos específicos para melhorar as condições de navegação datam de 1905. Por volta de 1914, foram executadas obras relacionadas ao molhe Sul, seguidas por intervenções no molhe Norte.

As obras do cais começaram efetivamente em 1938, com a construção de um primeiro trecho em concreto armado, pátios pavimentados e um armazém. A estrutura foi ampliada nas décadas seguintes, incluindo a complementação do cais e a construção de instalações voltadas ao armazenamento de cargas. Em 1966, o Porto de Itajaí foi reconhecido como porto organizado, em razão de sua importância para o comércio e para a atividade industrial do Vale do Itajaí.

A modernização alterou a paisagem da foz do rio e ampliou a capacidade de movimentação de mercadorias. Durante parte do século XX, a madeira teve papel relevante nas exportações. Mais tarde, o porto passou a operar com contêineres e cargas de maior complexidade logística, acompanhando as transformações do comércio internacional.

O Porto de Itajaí tornou-se, assim, mais do que uma instalação de transporte. Seu funcionamento passou a influenciar o mercado de trabalho, a expansão urbana, a abertura de empresas e a formação de uma rede de serviços. A atividade portuária também ajudou a criar uma memória coletiva marcada pelo movimento de navios, caminhões, guindastes, trabalhadores e embarcações de diferentes tamanhos.

O histórico oficial do Porto de Itajaí mostra que a consolidação da estrutura portuária ocorreu em etapas, acompanhando as necessidades econômicas e as mudanças no sistema de transportes. A trajetória ajuda a explicar por que o porto ocupa posição central na identidade de Itajaí.

Pesca industrial e comunidades ligadas ao mar

Se o porto ampliou a conexão de Itajaí com o comércio nacional e internacional, a pesca reforçou o vínculo cotidiano da cidade com o oceano. A atividade está associada à presença de pescadores, embarcações, trabalhadores de manutenção naval, profissionais de beneficiamento e empresas responsáveis pela conservação e distribuição dos pescados.

A vocação pesqueira é atribuída, em parte, à chegada de famílias portuguesas com tradição marítima. Informações divulgadas pelo Município de Itajaí relacionam esse processo à vinda, no século XIX, de pescadores originários de Ericeira, em Portugal. A herança se somou aos conhecimentos desenvolvidos por comunidades locais e às condições naturais do litoral catarinense.

Com o avanço da pesca industrial, Itajaí passou a concentrar uma cadeia produtiva ampla. O setor envolve captura, desembarque, armazenamento, processamento, transporte e comercialização. Também movimenta atividades complementares, como a fabricação e o reparo de barcos, a produção de gelo, a venda de equipamentos e a formação de mão de obra especializada.

Essa estrutura convive com práticas artesanais presentes em comunidades do litoral de Santa Catarina. A pesca artesanal preserva técnicas, conhecimentos sobre o clima e os ciclos do mar, modos próprios de organização do trabalho e uma relação direta com o território. Publicação da Epagri sobre a pesca artesanal marinha destaca a dimensão econômica, social e cultural dessa atividade no Estado.

Em Itajaí, o trabalho ligado à pesca também aparece na paisagem. Barcos atracados, ranchos, áreas de desembarque e oficinas lembram que o mar não é apenas cenário turístico, mas fonte de renda e espaço de vida para muitas famílias. Ao mesmo tempo, a atividade enfrenta desafios relacionados à sustentabilidade dos estoques pesqueiros, às condições de trabalho, às mudanças ambientais e à necessidade de conciliar diferentes usos da zona costeira.

Gastronomia e herança portuguesa

A culinária é uma das formas mais visíveis de preservação das tradições marítimas de Itajaí. Peixes e frutos do mar fazem parte do cardápio de restaurantes, mercados e festas populares. Entre os preparos mais associados à identidade local está a sardinha na brasa, prato que ganhou destaque na principal celebração gastronômica da cidade.

A gastronomia também evidencia a herança portuguesa e açoriana. Receitas com peixe, bacalhau, camarão e outros frutos do mar convivem com ingredientes e modos de preparo incorporados ao longo da formação do município. A culinária funciona como um elo entre a memória das famílias, o trabalho dos pescadores e o consumo contemporâneo.

Na área central, a região da Beira-Rio reúne restaurantes e espaços de convivência próximos ao curso do Itajaí-Açu. O local se tornou uma referência para quem deseja observar a paisagem fluvial e conhecer parte da gastronomia associada à cidade. A experiência, porém, não se limita ao turismo: ela também revela como o rio permanece integrado ao cotidiano urbano.

Marejada transforma tradição em festa popular

A Marejada é o principal evento de Itajaí ligado à pesca e à cultura marítima. Realizada desde 1987, a festa reúne gastronomia, música, danças, manifestações folclóricas e referências à presença portuguesa na formação do município. O evento é apresentado pelo poder público como a maior festa do pescado do Brasil.

A sardinha assada na brasa ocupa posição de destaque no cardápio. A festa também costuma oferecer pratos com outros peixes, frutos do mar, bacalhau e preparações associadas à cozinha portuguesa. Restaurantes temáticos, artesanato, apresentações artísticas e decoração inspirada em barcos ajudam a aproximar entretenimento e memória cultural.

O evento cresceu ao longo das décadas e passou a atrair moradores e visitantes de diferentes regiões. Em 2025, a organização informou que a Marejada recebeu 260.090 pessoas durante os 18 dias de programação. O número mostra a dimensão alcançada pela festa, mas também reforça a necessidade de planejamento para conciliar grande público, infraestrutura, geração de resíduos e preservação da identidade cultural.

A preocupação ambiental passou a fazer parte do discurso e da organização do evento. A página oficial da Marejada destaca medidas relacionadas à redução do uso de plástico descartável, ao reaproveitamento de materiais e à gestão de resíduos. A iniciativa acompanha um debate mais amplo sobre a sustentabilidade das festas, da pesca e das atividades econômicas ligadas ao mar.

Folclore, música e memória das comunidades

A cultura de Itajaí não se resume ao porto e à pesca comercial. A cidade também preserva manifestações populares associadas à herança luso-brasileira e à vida comunitária. O Boi de Mamão, folguedo tradicional de Santa Catarina, aparece em projetos culturais, apresentações e ações educativas voltadas à transmissão das histórias e das músicas para novas gerações.

A presença do Boi de Mamão demonstra que a relação com o mar também se expressa por meio da cultura popular. Personagens, cantorias, instrumentos e danças são mantidos por grupos e artistas que atuam em escolas, eventos e espaços culturais. A continuidade dessas práticas depende da participação comunitária e do reconhecimento de mestres e brincantes.

Corais, festas religiosas, música popular e celebrações de origem portuguesa completam esse conjunto de tradições. Igrejas, praças, mercados e áreas próximas ao rio formam uma rede de lugares onde a memória da cidade é atualizada por diferentes gerações.

Entre a tradição e os novos usos do mar

Itajaí passou por forte urbanização e diversificação econômica, mas não abandonou sua identidade marítima. O porto continua associado à logística e ao comércio exterior; a pesca permanece como atividade estratégica; e a cultura náutica ganhou novas dimensões com o turismo, os esportes e os eventos internacionais.

O município também busca aproximar a população de temas como educação ambiental, preservação da vida marinha e uso sustentável da costa. Projetos relacionados à cultura náutica e ao legado de competições internacionais de vela incluem propostas de ações educativas, práticas esportivas e capacitação para setores ligados ao turismo e à economia do mar.

Esse processo cria oportunidades, mas exige equilíbrio. A valorização turística não pode apagar o trabalho das comunidades pesqueiras, assim como o crescimento portuário precisa conviver com a proteção ambiental e a preservação do patrimônio histórico. A paisagem de Itajaí é resultado dessa sobreposição de atividades: navios de carga, barcos pesqueiros, áreas de lazer, estaleiros, restaurantes e bairros tradicionais.

A história de Itajaí, portanto, não pode ser contada sem considerar o rio e o mar. O Porto de Itajaí explica parte da expansão econômica; a pesca revela a importância do trabalho e dos conhecimentos transmitidos entre gerações; e festas como a Marejada transformam essa experiência em celebração pública.

Mais do que uma cidade voltada para a água, Itajaí construiu no litoral uma forma própria de viver, trabalhar e preservar memórias. É nessa combinação entre atividade econômica, paisagem e cultura que se encontra a principal marca do município catarinense.

Fontes consultadas: Portal do Município de Itajaí, Porto de Itajaí, Secretaria de Estado do Turismo de Santa Catarina e Epagri.