sábado, 3 de outubro de 2026
CIDADES

Lages: tradições e paisagens que definem a Serra Catarinense

Lages, na Serra Catarinense, preserva marcas do tropeirismo, da cultura gaúcha e da vida rural. A cidade também se destaca pelas paisagens da Coxilha Rica, pelo pinhão e por eventos como a Festa Nacional do Pinhão.

Lages, na Serra Catarinense, reúne em um mesmo território elementos que ajudam a explicar a identidade do planalto de Santa Catarina. A cidade é marcada pela presença das araucárias, pelos campos de altitude, pela herança do tropeirismo, pela gastronomia baseada no pinhão e por manifestações culturais associadas à música e aos costumes do Sul do Brasil.

Com formação histórica ligada às antigas rotas de circulação de tropas e mercadorias, Lages se tornou uma referência regional tanto pelo patrimônio cultural quanto pelas paisagens rurais. A cidade também funciona como porta de entrada para experiências que combinam natureza, história, culinária e vida no campo.

Uma cidade formada pelos caminhos do planalto

A história de Lages remonta ao século XVIII, quando a ocupação do interior catarinense passou a acompanhar os caminhos utilizados por tropeiros e criadores de gado. As rotas ligavam áreas do Sul e do Sudeste do Brasil e contribuíram para a formação de povoados, fazendas e pontos de apoio ao longo do planalto.

O comércio de animais e a circulação de pessoas ajudaram a estruturar a economia local. Durante décadas, o modo de vida esteve associado à criação de gado, ao trabalho nas propriedades rurais e às relações construídas entre os moradores dos campos e das áreas urbanas.

Essa origem ainda aparece na paisagem e na cultura. Muros de pedra, fazendas antigas, caminhos rurais, cavalos, cozinhas com fogão a lenha e práticas de convivência como o chimarrão fazem parte do imaginário serrano, mas também permanecem presentes em diferentes comunidades e iniciativas culturais.

A herança tropeira na Coxilha Rica

Um dos principais símbolos da paisagem rural de Lages é a Coxilha Rica. A região é formada por extensos campos de altitude e guarda vestígios da antiga circulação de tropas, incluindo muros de pedra e propriedades rurais com importância histórica.

A Coxilha Rica está associada ao Caminho das Tropas, rota terrestre que teve papel relevante na ligação entre o Sul e o Sudeste do país. O trajeto era utilizado por tropeiros que conduziam animais e transportavam produtos por longas distâncias, contribuindo para a integração econômica e cultural de diferentes regiões.

Atualmente, a área é procurada por visitantes interessados em turismo rural, cavalgadas, trilhas, observação da paisagem e contato com atividades do campo. Algumas experiências também incluem visitas a fazendas históricas, culinária serrana e vivências relacionadas à criação de animais e à rotina rural.

O turismo na Coxilha Rica depende de planejamento e respeito às características do território. Como se trata de uma região extensa, com trechos rurais e propriedades particulares, o acesso deve ser organizado com antecedência e, quando necessário, acompanhado por condutores ou operadores que conheçam a área.

O pinhão como alimento e símbolo cultural

Na Serra Catarinense, o pinhão vai além da condição de produto típico. A semente da araucária está ligada à memória familiar, às reuniões comunitárias e aos costumes do período mais frio do ano. Em Lages, ela aparece em receitas tradicionais e em eventos que valorizam a produção regional.

O preparo pode ocorrer de diferentes maneiras. O pinhão é consumido cozido, assado na chapa ou sapecado entre as grimpas da araucária. Também é utilizado em pratos como a paçoca de pinhão e o entrevero, preparação que combina a semente com carnes e outros ingredientes.

A sapecada é uma das formas mais conhecidas de preparo. O ritual envolve o uso do fogo e costuma reunir pessoas em torno da comida, da conversa e da música. A prática representa uma conexão entre o alimento, o ambiente natural e os costumes transmitidos entre gerações.

Esse conjunto de tradições ganhou projeção nacional com a Festa Nacional do Pinhão, um dos principais eventos culturais de Lages. A programação reúne apresentações musicais, manifestações tradicionalistas, gastronomia, artesanato e atividades relacionadas à identidade da Serra Catarinense.

Festa Nacional do Pinhão aproxima cultura e turismo

A Festa Nacional do Pinhão se consolidou como um dos eventos mais conhecidos de Lages. Durante o período da festa, a cidade recebe moradores da região e visitantes de outras partes de Santa Catarina e do país.

O evento combina atrações de grande público com espaços dedicados à cultura local. Entre os elementos presentes estão a música nativista, os trajes tradicionalistas, as danças, a culinária regional e as apresentações que recuperam temas ligados à vida campeira.

As Sapecadas da Serra Catarinense e da Canção Nativa também contribuem para a preservação e a divulgação da produção artística ligada ao universo serrano. As competições valorizam compositores, intérpretes e grupos que trabalham com temas como a paisagem, o cotidiano rural, a memória e os costumes do Sul.

Além do impacto cultural, a festa movimenta hotéis, restaurantes, comércio e serviços. O evento amplia a circulação de visitantes e ajuda a colocar Lages no calendário de quem procura destinos de inverno e experiências relacionadas ao turismo de natureza e de tradição.

Patrimônio histórico no centro da cidade

A história de Lages também pode ser conhecida por meio de seus espaços culturais. O Museu Histórico Thiago de Castro reúne documentos, fotografias, objetos, mobiliário e outros registros que ajudam a compreender a formação do município e da Serra Catarinense.

Outro destaque é o Casarão Juca Antunes, construção de meados do século XIX e um dos exemplares preservados da arquitetura luso-brasileira urbana na região. O imóvel foi restaurado e passou a funcionar como espaço cultural, recebendo exposições, feiras e atividades relacionadas à memória local.

A preservação desses edifícios contribui para manter visíveis diferentes etapas da história de Lages. Em vez de tratar o patrimônio apenas como cenário, a cidade utiliza museus, exposições e ações culturais para relacionar os imóveis às transformações econômicas, sociais e políticas do município.

O centro urbano também reúne praças, monumentos, igrejas e equipamentos culturais que podem ser visitados em roteiros de curta duração. Esses espaços ajudam a perceber como uma cidade formada em torno das antigas rotas de circulação se transformou em polo regional de serviços, comércio e atividades culturais.

Paisagens de campos, matas e rios

As paisagens de Lages são marcadas pelo contraste entre áreas abertas e formações de mata. Nos campos de altitude, o horizonte se amplia e a vegetação rasteira divide espaço com capões de araucária, propriedades rurais e caminhos que atravessam o interior do município.

A araucária é uma das árvores mais representativas da região. Além de compor a paisagem, ela está diretamente relacionada à cultura do pinhão e a conhecimentos tradicionais sobre coleta, preparo e consumo. A preservação das florestas de araucária é, portanto, importante tanto para a biodiversidade quanto para a continuidade de práticas culturais.

Entre os atrativos naturais do município estão áreas verdes, parques, trilhas, cachoeiras e o alagado do Salto Caveiras. O Parque Natural Municipal João José Theodoro da Costa Neto, conhecido como Parnamul, também integra o conjunto de áreas destinadas ao contato com a natureza e à educação ambiental.

Na área urbana, o Parque Jonas Ramos, conhecido como Tanque, é um dos espaços tradicionais de convivência. O Morro da Cruz oferece vista panorâmica da cidade e também possui significado religioso para parte da população, especialmente durante celebrações e manifestações de fé.

O frio como parte da experiência serrana

O inverno é um dos períodos que mais reforçam a imagem turística de Lages. As temperaturas baixas, a possibilidade de geada e a presença de paisagens rurais atraem visitantes interessados em gastronomia, hospedagens de campo e atividades ao ar livre.

O frio também influencia os hábitos cotidianos. Cafés, restaurantes e pousadas costumam valorizar pratos quentes, carnes, pinhão, queijos, doces e bebidas associadas à temporada. Em muitas propriedades rurais, o fogão a lenha e a hospitalidade são apresentados como parte da experiência, sem separar o turismo da rotina do campo.

Apesar da força do inverno, Lages não depende de uma única estação. A cidade pode ser visitada em diferentes períodos do ano, especialmente por quem deseja conhecer a Coxilha Rica, explorar o patrimônio cultural ou participar de eventos tradicionais. As condições de acesso a áreas rurais e trilhas, no entanto, podem variar conforme o clima.

Uma identidade que combina memória e transformação

A identidade de Lages foi construída a partir de diferentes influências. O tropeirismo, a criação de gado, a cultura gaúcha, a presença das comunidades rurais e a vida urbana formam um conjunto de referências que não pode ser reduzido a uma única tradição.

Essa diversidade aparece na música, nos trajes, na culinária, nos eventos, no artesanato e na arquitetura. Também está presente em práticas cotidianas, como o preparo do pinhão, as rodas de chimarrão e a valorização da palavra dada e da hospitalidade, características frequentemente associadas à cultura serrana.

Ao mesmo tempo, Lages passou por mudanças econômicas e sociais que alteraram a paisagem e o modo de vida da população. A preservação da memória local não significa manter a cidade parada no tempo, mas reconhecer as referências históricas que ajudam a explicar o presente.

Para o visitante, conhecer Lages é observar essa combinação entre passado e transformação. O roteiro pode começar no centro histórico, seguir pelos museus e espaços culturais, avançar até os parques urbanos e terminar em áreas rurais como a Coxilha Rica. Em cada trecho, a cidade apresenta uma parte da história da Serra Catarinense.

Mais do que um destino associado ao frio ou ao pinhão, Lages oferece uma leitura ampla do planalto catarinense. Suas tradições, paisagens e espaços de memória revelam uma região formada por caminhos antigos, trabalho rural, natureza preservada e manifestações culturais que continuam sendo atualizadas pelas novas gerações.