sábado, 3 de outubro de 2026
Serviços

Marejada e a tradição portuguesa de Itajaí: história, pescado e identidade açoriana

A Marejada nasceu em Itajaí como Festa Portuguesa e do Pescado e se tornou uma das principais celebrações da identidade cultural da cidade. A tradição aparece na gastronomia, na música, nas danças, nos símbolos ligados ao mar e na valorização da herança açoriana.

A Marejada é uma das principais expressões culturais de Itajaí, no litoral de Santa Catarina. Criada em 1987 com o nome de Festa Portuguesa e do Pescado, a celebração aproximou duas dimensões que fazem parte da história do município: a presença luso-açoriana e a relação econômica, social e cultural com o mar.

Ao longo das décadas, o evento deixou de ser apenas uma festa gastronômica e passou a representar a identidade de Itajaí. A sardinha assada na brasa, os frutos do mar, as danças típicas, os grupos folclóricos, a música e os elementos ligados à vida pesqueira formam um conjunto que remete às origens da cidade e à permanência de costumes transmitidos entre gerações.

O município apresenta a Marejada como a maior festa do pescado do Brasil. A programação também é divulgada como uma celebração da cultura portuguesa, especialmente da herança açoriana presente no litoral catarinense.

Como surgiu a Marejada

A primeira edição ocorreu em 1987, em um período no qual Itajaí buscava fortalecer sua identidade cultural e ampliar sua projeção turística. A escolha do pescado como elemento central estava relacionada à importância histórica da pesca e da atividade portuária para a cidade.

O nome original do evento sintetizava essa proposta. A expressão Festa Portuguesa e do Pescado destacava, de um lado, a influência dos imigrantes e descendentes de portugueses; de outro, a vocação marítima de Itajaí. Posteriormente, o termo Marejada passou a identificar a festa de forma mais ampla.

A escolha não foi casual. Situada na foz do rio Itajaí-Açu, a cidade desenvolveu sua história em estreita ligação com o transporte, a navegação, o comércio e a pesca. O mar e o rio contribuíram para a formação econômica do município e também influenciaram hábitos alimentares, manifestações culturais e formas de sociabilidade.

Desde o início, a organização procurou associar a festa ao turismo gastronômico. A proposta era apresentar pratos baseados em pescados e frutos do mar, ao mesmo tempo em que valorizava manifestações culturais relacionadas à tradição portuguesa.

A presença açoriana no litoral catarinense

Quando se fala na tradição portuguesa de Itajaí, a referência mais precisa é a herança luso-açoriana. Os Açores são um arquipélago português situado no Atlântico, e a presença de famílias oriundas dessas ilhas marcou diferentes áreas do litoral de Santa Catarina.

Essa influência não se resume a sobrenomes ou registros históricos. Ela aparece em festas religiosas, formas de trabalho, relações com o mar, receitas, modos de construir, vocabulário e manifestações populares. Em Itajaí, esses elementos se combinaram com outras influências e com as transformações econômicas ocorridas ao longo do tempo.

A Marejada atua como uma vitrine dessa herança. Durante o evento, referências à cultura açoriana são apresentadas por meio de pratos tradicionais, decoração, apresentações musicais, danças e símbolos ligados à vida marítima. A festa também cria um espaço para que essa memória seja compartilhada com moradores e visitantes.

Esse processo de valorização cultural não significa que a identidade de Itajaí seja formada por uma única origem. A cidade reúne diferentes trajetórias familiares, grupos sociais e influências. A tradição portuguesa é uma das matrizes mais visíveis da Marejada, mas o evento também incorpora características próprias da comunidade itajaiense e da cultura catarinense.

Gastronomia como eixo da festa

A comida é um dos principais elementos da Marejada. A sardinha na brasa se tornou o prato mais associado ao evento e funciona como símbolo da ligação entre a festa, a pesca e a tradição culinária portuguesa.

O cardápio também reúne outros pescados, frutos do mar e receitas preparadas por restaurantes que participam da programação. Em diferentes edições, a organização incluiu espaços dedicados à gastronomia tipicamente portuguesa e à culinária açoriana.

A escolha dos pratos ajuda a contar a história da cidade. Mais do que oferecer uma refeição, a festa apresenta hábitos alimentares ligados ao litoral e à disponibilidade de pescado. A culinária funciona, nesse contexto, como uma forma de preservar lembranças familiares e práticas que poderiam perder espaço diante da mudança dos costumes.

As receitas servidas no evento também passaram por adaptações. A Marejada é uma celebração contemporânea, realizada em uma cidade que se transformou com a industrialização, o crescimento urbano e a modernização da atividade pesqueira. Por isso, a gastronomia da festa combina referências tradicionais com formatos de atendimento e consumo próprios de um grande evento público.

Música, dança e símbolos da cultura portuguesa

A Marejada não se limita aos restaurantes. A programação cultural costuma incluir apresentações musicais, grupos folclóricos, danças típicas e atrações ligadas à cultura regional. Esses elementos ampliam o significado da festa e ajudam a diferenciar o evento de uma feira exclusivamente gastronômica.

As manifestações portuguesas aparecem em trajes, coreografias, músicas e representações da vida comunitária. Em determinadas edições, também foram realizados desfiles pelas ruas de Itajaí, levando a celebração para além do espaço principal do evento.

Os símbolos ligados ao mar ocupam posição central. Barcos, sardinhas, redes de pesca e referências à navegação aparecem na decoração e na comunicação da festa. Em edições anteriores, restaurantes chegaram a funcionar dentro de estruturas em formato de barco, reforçando a associação entre a Marejada e a cultura barqueira do município.

Outro personagem relacionado à história do evento é o Marejão, mascote criado para representar uma sardinha. A figura ajudou a aproximar a festa do público infantil e a transformar um produto associado à pesca em um símbolo reconhecido da celebração.

Uma festa que mudou com o tempo

Como ocorre com outras festas populares, a Marejada passou por mudanças ao longo de sua trajetória. O evento ampliou sua estrutura, incorporou novas atrações e passou a receber públicos de diferentes regiões. A programação deixou de se concentrar apenas na gastronomia e passou a incluir atividades para famílias, música, artesanato, entretenimento e manifestações culturais.

Uma mudança importante ocorreu em 2012, quando a entrada passou a ser gratuita. A medida ampliou o acesso e favoreceu a participação de moradores e visitantes que não necessariamente procuravam uma experiência gastronômica específica.

As edições recentes também passaram a destacar medidas de sustentabilidade e acessibilidade. A organização divulgou ações como uso de copos reutilizáveis, redução de materiais descartáveis, oferta de água e destinação de resíduos. Essas iniciativas procuram responder a desafios próprios de eventos que reúnem grandes públicos.

Em 2025, segundo dados divulgados pelo Município de Itajaí, a Marejada recebeu 260.090 pessoas ao longo de 18 dias. A edição também retomou o concurso da realeza da festa e promoveu novamente um desfile típico pelas ruas da cidade. O resultado mostra como a celebração combina elementos antigos com formatos atualizados de programação e comunicação.

Memória, identidade e turismo

A importância da Marejada não está apenas no número de visitantes ou na movimentação econômica. A festa também cumpre uma função de memória. Ao reunir comida, música e símbolos do cotidiano marítimo, ela apresenta uma narrativa sobre a formação de Itajaí e sobre a maneira como a cidade se reconhece.

Para os moradores, o evento pode representar um reencontro com práticas familiares e lembranças de outras edições. Para os visitantes, funciona como uma introdução à cultura local, à produção pesqueira e à herança açoriana do litoral catarinense.

A relação com o turismo é igualmente relevante. A Marejada integra o calendário de festas de outubro de Santa Catarina e contribui para atrair público ao município em um período de intensa programação regional. Hotéis, restaurantes, comércio, transporte e serviços podem ser beneficiados pelo fluxo de visitantes, embora os resultados econômicos de cada edição dependam de fatores como duração do evento, programação e condições de acesso.

A festa também fortalece a imagem de Itajaí como cidade ligada ao mar. Essa associação se conecta ao porto, à pesca, à construção naval, à gastronomia e às paisagens da foz do Itajaí-Açu. A Marejada transforma esses elementos em uma experiência coletiva, com forte apelo cultural e turístico.

O significado atual da tradição portuguesa

A tradição portuguesa apresentada pela Marejada não é uma reprodução estática do passado. Ela é reinterpretada a cada edição por meio de novas atrações, mudanças na estrutura, recursos de acessibilidade e preocupações ambientais.

Esse movimento permite que a festa continue reconhecível sem permanecer presa a um único formato. A sardinha na brasa, as danças, a música e as referências açorianas preservam a continuidade histórica. Ao mesmo tempo, a participação de artistas locais, a presença de diferentes públicos e a adoção de práticas sustentáveis atualizam o evento.

É nessa combinação entre permanência e transformação que a Marejada mantém sua relevância. A festa recupera uma parte da história portuguesa e açoriana de Itajaí, mas também revela como essa identidade é vivida no presente.

Mais de três décadas depois da primeira edição, a Marejada continua associando o patrimônio cultural da cidade à economia do mar. Sua força está justamente na capacidade de reunir diferentes dimensões de Itajaí em um mesmo espaço: a memória dos antepassados, a atividade pesqueira, a culinária, a música, a convivência comunitária e o turismo.

Por isso, compreender a Marejada é também compreender uma parcela da história de Itajaí. A festa não apenas celebra a tradição portuguesa; ela mostra como uma comunidade escolhe preservar, reorganizar e apresentar suas raízes às novas gerações.