O turismo rural em Santa Catarina transforma propriedades agrícolas, fazendas e pequenas agroindústrias em espaços de convivência, lazer e aprendizado. Em vez de apenas observar a paisagem, o visitante pode conhecer a rotina das famílias, experimentar produtos coloniais, participar de atividades ligadas à produção e entender como tradições rurais continuam presentes no estado.
A proposta combina descanso, contato com a natureza e valorização da cultura local. Também cria uma alternativa de renda para agricultores familiares, que passam a oferecer hospedagem, alimentação, visitação, trilhas, experiências produtivas e venda direta de mercadorias produzidas na propriedade ou na região. (epagri.sc.gov.br)
Uma experiência além da paisagem
O turismo rural não se limita à visita a uma área verde ou a uma hospedagem distante dos centros urbanos. A principal característica do segmento é a possibilidade de vivenciar elementos do cotidiano rural, como o cultivo de alimentos, a criação de animais, a preparação de refeições, o processamento artesanal e os costumes preservados pelas famílias.
Em diferentes regiões catarinenses, os roteiros incluem cafés coloniais, refeições preparadas em fogão a lenha, trilhas, passeios a cavalo, colheita de frutas, visita a pomares, contato com animais e participação em atividades tradicionais. Há também propriedades que comercializam queijos, doces, embutidos, geleias, bebidas artesanais, produtos de cana-de-açúcar e outros itens associados à produção local.
Em Ibirama, no Alto Vale do Itajaí, o programa Caminhos do Campo reúne propriedades que oferecem hospedagem, gastronomia rural, produtos coloniais, trilhas e atividades de lazer. A iniciativa procura apresentar aos visitantes práticas, costumes, tradições e sabores ligados à história das comunidades formadas por descendentes de imigrantes europeus. (turismoemibirama.sc.gov.br)
Serra, vales e interior catarinense
As características geográficas e culturais de Santa Catarina favorecem a expansão do turismo rural. O estado reúne áreas de serra, vales, planaltos, pequenas propriedades, rios, cachoeiras, matas e paisagens de forte presença agrícola. A diversidade também aparece na arquitetura, na culinária, nas festas comunitárias e nos modos de produção.
Segundo publicação do Ministério do Turismo, a Serra Catarinense é associada às primeiras experiências de turismo rural no país. A região reúne fazendas centenárias, hospedagens rurais, araucárias, cânions, rios e cascatas, além de manifestações culturais ligadas às comunidades de origem alemã, italiana, pomerana e de outros grupos de colonização. (gov.br)
Registros históricos da Epagri apontam que as primeiras iniciativas estruturadas no estado começaram em Lages, na Serra Catarinense, na década de 1980. A atividade também ganhou força em municípios como São Martinho, onde propriedades passaram a combinar a produção agrícola com a recepção de visitantes e a comercialização de produtos locais. (publicacoes.epagri.sc.gov.br)
A agricultura familiar como base do segmento
Grande parte das experiências de turismo rural está relacionada à agricultura familiar. Nesse modelo, a propriedade continua vinculada à produção de alimentos, mas amplia suas atividades para receber visitantes e apresentar os processos que normalmente ficam fora do alcance de quem vive nas cidades.
A legislação estadual define o Turismo Rural na Agricultura Familiar como um conjunto de atividades realizadas em unidades de produção familiar ou em localidades rurais, com valorização do modo de vida, do patrimônio cultural e dos recursos naturais. A política de apoio ao setor foi instituída em Santa Catarina pela Lei nº 14.361, de 25 de janeiro de 2008. (legislacao.sef.sc.gov.br)
Na prática, essa integração pode ocorrer de várias formas. Uma família pode oferecer almoço colonial em datas específicas, abrir a propriedade para grupos agendados, vender alimentos produzidos no local, organizar uma trilha, apresentar uma técnica artesanal ou disponibilizar quartos para hospedagem. O turismo passa a complementar a atividade agrícola sem necessariamente substituí-la.
Renda, permanência no campo e participação familiar
O turismo rural é apresentado por instituições de extensão e apoio ao produtor como uma forma de diversificar a renda e agregar valor à produção. Em vez de comercializar apenas a matéria-prima, a família pode oferecer uma experiência completa, com alimentação, atendimento, visitação e produtos processados.
A Epagri relata que propriedades catarinenses receberam orientação para desenvolver serviços turísticos, melhorar estruturas, organizar a produção e acessar políticas públicas de crédito. Em 2022, projetos acompanhados pela empresa no Vale do Itajaí somaram R$ 943 mil em investimentos, distribuídos em 13 propostas de financiamento. No mesmo período, cerca de 150 famílias receberam mais de 800 atendimentos relacionados ao turismo. (epagri.sc.gov.br)
Esse tipo de atividade também envolve diferentes gerações da família. Mulheres assumem funções de gestão, cozinha, atendimento e comercialização, enquanto jovens podem atuar na divulgação, nas reservas, no uso de ferramentas digitais e na organização das experiências. Para algumas propriedades, a criação de novas fontes de receita ajuda a tornar a permanência no meio rural mais viável.
Os resultados, porém, dependem de planejamento, capacitação, infraestrutura e capacidade de atendimento. O turismo exige organização de horários, segurança para os visitantes, cuidados sanitários, divulgação e definição clara dos serviços oferecidos. Por isso, a abertura da propriedade ao público precisa ser compatível com a rotina da produção e com os recursos disponíveis.
Gastronomia e produtos coloniais
A comida é um dos principais elementos do turismo rural em Santa Catarina. O café colonial, os pães, as cucas, os queijos, os doces, as geleias, as carnes, os derivados de cana-de-açúcar e as bebidas artesanais funcionam como pontos de contato entre o visitante e a história de cada comunidade.
Mais do que oferecer uma refeição, as propriedades apresentam receitas, técnicas e ingredientes que fazem parte da memória das famílias. Em alguns casos, o visitante acompanha etapas da produção, conhece os utensílios utilizados e compra os alimentos diretamente de quem os prepara.
No Oeste catarinense, a Rota da Ovelha e Sabores de Lajeado Grande reúne propriedades ligadas à ovinocultura, à produção de derivados, aos queijos coloniais, às frutas orgânicas, aos produtos de cana e às refeições de estilo colonial. O roteiro foi lançado em 2022 com participação do poder público, do Sebrae de Santa Catarina e da Epagri. (blog.epagri.sc.gov.br)
Em Guaraciaba, no Extremo-Oeste, uma família uniu a produção de açúcar, melado e outros itens artesanais à recepção de visitantes. O exemplo mostra como conhecimentos transmitidos entre gerações podem se transformar em produtos e experiências capazes de fortalecer a economia local. (blog.epagri.sc.gov.br)
Contato com a natureza e valorização do território
As atividades rurais também podem contribuir para aproximar o turismo da conservação ambiental. Trilhas, áreas de descanso, visitas a nascentes, observação da paisagem e passeios por estradas do interior dependem da preservação do entorno e de um uso cuidadoso do espaço.
De acordo com a Epagri, propriedades acompanhadas no Vale do Itajaí adotaram melhorias em sistemas de captação de água, proteção de nascentes, tratamento de efluentes e práticas agropecuárias. A empresa também relaciona o turismo rural à recuperação ambiental e à valorização das paisagens naturais. (epagri.sc.gov.br)
Esse processo não significa que toda propriedade rural esteja preparada para receber visitantes ou que o turismo, por si só, garanta conservação. A atividade precisa ser planejada de acordo com a capacidade do local, com atenção ao manejo de resíduos, ao consumo de água, à segurança e à proteção das áreas naturais.
Novas regras para os serviços turísticos rurais
O Ministério do Turismo publicou, em 2025, uma portaria sobre o cadastramento de produtores rurais e agricultores familiares que prestam serviços turísticos remunerados no meio rural. A norma contempla hospedagem, alimentação e bebidas produzidas total ou parcialmente na propriedade ou na região, visitas, vivências relacionadas à produção agropecuária e comercialização de produtos rurais e artesanais. (gov.br)
A medida reconhece a variedade de serviços que fazem parte do turismo rural e estabelece uma referência para a relação do segmento com o cadastro oficial do setor. Para o visitante, a existência de regras e informações claras ajuda a diferenciar os serviços oferecidos e a buscar empreendimentos que atuem de forma regular.
Como o visitante pode aproveitar melhor
Quem pretende conhecer uma propriedade rural em Santa Catarina deve verificar previamente o funcionamento do local. Muitos empreendimentos trabalham com agendamento, têm dias específicos de atendimento ou limitam o número de visitantes por grupo.
Também é importante confirmar quais atividades estão incluídas, se há alimentação, hospedagem ou cobrança separada, as condições de acesso e as orientações para circulação pela propriedade. Em áreas de produção, o visitante deve seguir as instruções dos responsáveis, respeitar os animais, evitar retirar produtos sem autorização e cuidar do descarte de resíduos.
O turismo rural funciona melhor quando há respeito pelo ritmo da comunidade e pelo trabalho realizado na propriedade. Para o visitante, a experiência pode representar uma pausa na rotina urbana. Para as famílias, pode significar uma forma de apresentar seu modo de vida, fortalecer a produção e criar novas oportunidades no campo.
Em Santa Catarina, a atividade se desenvolve justamente nessa aproximação entre quem produz e quem visita. Ao abrir as porteiras, as propriedades não oferecem apenas paisagens: apresentam histórias, sabores, técnicas, vínculos comunitários e uma parte da diversidade cultural do estado.








